Desde a queda dos países da Cortina de Ferro, afectos ao antigo bloco soviético, que o mundo não assistia a um efeito dominó tão grande e expressivo da vontade popular que vivia reprimida em regimes tutelados por ditaduras. São populações de milhões de cidadãos, amordaçados por sistemas de governação pouco conhecidos e, quiçá, pouco divulgados, a pretexto de uma religião diferente que nos fazia aceitar a nós, ocidentais, a sua diversidade, por respeito a todas as opções. E não o fizemos a contra-gosto, já que o mundo civilizado se expressa, na verdade, dessa maneira. A revolução que hoje se vive no mundo árabe faz-nos pensar numa nova ordem mundial que agravará irremediavelmente a economia mundial, e permitirá um novo atlas político-estratégico, com novos acordos e novas parcerias. O sistema repressivo dos estados policiais que se vivia nesses países que, até há pouco tempo, cobriam a voz dos seus povos, amedrontados pelo Poder dos ditadores, que ostentavam o tal luxo das arábias, faliu. O Poder está a cair na rua e os senhores todo-poderosos são apeados e fogem para onde ainda os acolhem, ou fazem promessas caricatas de abertura política a quem, ao fim de décadas de injustiça social, não acredita que possam mudar e tornarem-se democratas de um dia para outro. A verdade é que o mundo, nem mesmo o chamado ocidental que, inevitavelmente, saúda mudanças de regime nos países árabes, não está preparado para acolher esses milhões de cidadãos no mapa das democracias. O Ocidente está tão surpreso, quanto resignado, perante uma situação, que poucos esperavam, pois confiavam que nesse mundo aparte ditadores e militares conteriam a revolta dos ‘súbditos’, enquanto a economia se reorganizava. A fuga de Ben Ali, da Tunísia para a Arábia Saudita, foi a pedra de toque para a revolução que hoje se propaga como rastilho entre os países islamitas, onde os protestos marcam a agenda e o caos parece ser o passo seguinte à deposição dos chefes, multimilionários mas fracos e amedrontados face à fúria popular. Os acontecimentos estão a desenrolar-se. Estados Unidos, Rússia, China e União Europeia, os blocos mais importantes e, porventura, com políticas mais aceitáveis no seu relacionamento com os cidadãos, estão em alerta e atentos ao desenrolar dos factos. É preciso esperar para ver quem cai e quem se reergue neste cenário imprevisto de revoluções, todas elas com particularidades, mas com repercussões, em termos de segurança, difíceis de descortinar neste momento. Aos norte-americanos interessa saber o que acontecerá a Israel, à Rússia o que se passará junto das suas fronteiras e de alguns dos seus aliados, à China o que isto poderá provocar em termos de exportações e de acordos económicos e à União Europeia, bastião do politicamente correcto, que futuro espera esta Europa que está rodeada por árabes, alguns dos quais querendo ser europeus, e de países que têm animado a economia de algumas nações do Velho Continente. Um cenário difícil de prever, numa ocasião em que a ameaça principal é o caos que poderá provocar a falta de hábitos democráticos entre milhões que ganham pela primeira vez a sua voz, que largam a mordaça e proclamam, cegamente, a vingança de quem, supostamente, lhes fez mal a vida inteira. Exige-se à diplomacia o papel principal, mais que aos militares que, sabemos, não gostarão de se ver relegados para um papel secundário neste mundo em mudança. E não esqueçamos que muitos desses países são autênticas fortalezas de armas sofisticadas e letais. Armados por esses que agora reclamam também mais democracia... O dinheiro muda de mãos, mas não de cor.