Berlim era um esburacado manto branco. E eu divertia-me a pisar neve pelas ruas sem me habituar à extensa pista de gelo em que se transformara cada rio. E divertia-me a pôr a conversa em dia com o meu amigo Cristovão A. dos Reis, que montara dois dos filmes da Berlinale. Naquele dia, acordei tardíssimo. Já não o encontrei no escritório, de olhos postos no computador, com um cigarro pendurado no canto da boca, uma chávena suja de café. Liguei o portátil. O Público noticiava tempestade na Madeira. Dois ou três mortos lá para os lados do Funchal. Comi um pedaço de pão escuro com uma fatia de queijo cremoso, bebi um café frio, e corri para a paragem do autocarro que me levaria ao centro. Combinara duas sessões de cinema com o meu amigo e com a namorada, a Anette. Só quando saímos do último filme entrámos na realidade. A minha mãe não atendia, o meu pai não atendia, as minhas tias não atendiam - ninguém atendia telefones em São Vicente. Só apanhei primas residentes no Funchal. Uma das minhas tias fora de carro ao encontro de rede e apanharam-na em Santana. As tias estavam bem. E lá em casa? Ninguém me sabia dizer. De várias partes do país, chegavam mensagens de amigas e de amigos inquietos com as notícias da ilha. Cruzava informações com a minha irmã, em Lisboa, e com o meu irmão mais velho, em Caracas. Nem todos os quilómetros do mundo chegariam para impedir aquela partilha ansiosa. Um troço da estrada que liga São Vicente à Ribeira Brava desaparecera. E os meus pais, o meu irmão do meio e a minha sobrinha Angelina tinham passado por ela, naquela manhã. O primeiro a ouvir a voz dos nossos "desaparecidos" foi o primogénito. Nem um arranhão. Uff! Tinham estado todo o dia, sem rede, em Santa Cruz, à espera de um voo que o estado do tempo fora adiando - e que acabara por atirar para a tarde do dia seguinte. Recuperaram rede no Funchal. De repente, ligou-me um dos meus directores: - Preciso que arranques para a Madeira. - Estou em Berlim. Volto amanhã à tarde. -Demasiado tarde. Uma parte de mim já estava lá. A outra parte perguntava-se: "O que diabo faço aqui?" A caminho do aeroporto, imagens da ilha nos ecrãs do metro de Berlim. Ao fazer escala em Frankfurt, tirei o portátil do saco com tanta avidez que perdi duas teclas. Li as últimas notícias. E escrevi no blogue: "Em 1993, estava lá - não houve aulas: resgatei um gato-bebé e com isso iniciei a era dos felinos lá em casa. Agora, estou cá - inútil: nem sequer posso contar o que se passa." Só dias mais tarde percebi o quanto tudo aquilo fora violento até para mim, que estava longe e garantia a cada passo: "Está tudo bem. Estamos todos bem." Fui parar às urgências de um Hospital de Madrid, enfraquecida. Sim: o susto fora tão grande que tivera uma hemorragia.
Ana Cristina Pereira