O mês de Janeiro foi para organizar e arquivar papéis do ano anterior: desenhos, apontamentos, esboços, ideias… um exercício que permite ver em série uma sucessão de memórias diferentes de 2010. Se uma obra de arte é apenas o registo fóssil de uma personalidade, ao olhar para a diversidade dos desenhos do ano passado, parece que a alma que lhes deu origem não é uma só, mas um conglomerado de almas em simbiose hostil - e o resultado dessa luta definiu o meu comportamento e reflectiu-se na obra desenhada. É como se não houvesse um único 'EU', mas uma 'Colónia de EUs' - uma multiplicidade de elementos diferentes que coabitam e fazem da vida um contraponto (no sentido musical): ora sou uma pessoa, ora sou outra com atitudes diferentes e até inesperadas. Multiplicidade e Conflito que constroem uma espécie de "Prelúdio e Fuga" através das nossas vivências. Como acontece no livro 'O Médico e o Monstro' de Robert L. Stevenson, onde o Dr. Jekyll é o lado racional que domina os aspectos lógicos e científicos e o Mr. Hyde é a criatura de emoções instintivas. No caso de um artista, o lado Hyde deve dominar para que a obra criada seja totalmente sincera. Quando esse lado instintivo domina alguém com talento invulgar, surgem obras geniais, registos de personalidades tão extraordinárias que ninguém mais lhes poderia ter dado origem. Por isso as obras de Beethoven, Dostoevsky, Michelangelo mantêm a sua frescura apesar dos séculos. São registos fósseis ilustres de personalidades excepcionais.
Roberto Macedo Alves