Os governos da República e da Região impuseram medidas ferozes que comprometem o já muito precário bem-estar dos cidadãos e das famílias. De todas as medidas implementadas, as mais graves prendem-se com o fim de prestações sociais e a cobrança de serviços na saúde e na educação. São especialmente graves pelas dificuldades que acrescem às vidas dos cidadãos e cidadãs que, sem qualquer responsabilidade numa crise económica para que não contribuíram, se vêem como os seus principais pagadores. Esta "coragem" em não beliscar os interesses do poder económico e financeiro, sobrecarregando com imposições absurdas a vida dos portugueses é o sinal mais evidente de que a democracia está profundamente doente e de que, a pouco a pouco, vamos deixando de ser cidadãos, passando à ancestral condição de súbditos. A democracia está doente, quando o PS e o PSD vão acordando estratégias de manutenção do sistema, usando um discurso mediático cada vez mais hipócrita e arrogante, tomando-nos, descaradamente, como tolos. Vamos perdendo o estatuto de cidadania e passando à mera condição dos que obedecem, quando as preocupações quotidianas com o pão na mesa, a insegurança no trabalho, a falta de dinheiro, nos oprimem e limitam a liberdade de intervenção e discussão. Não há incompatibilidade entre a solução da crise e a manutenção do apoio que o Estado deve garantir aos seus cidadãos. Estas medidas não são uma fatalidade, são apenas o sinal mais evidente da cobardia política dos que defendem os interesses de uns quantos, a troco dos sacrifícios da maioria, a quem não atribuem senão o direito de os eleger na lógica de "com papas e bolos se enganam os tolos". A democracia está tão doente que até figuras populistas parecem enganosamente ser uma arma contra o regime.
Isabel Cardoso, Professora