"A luz do Sol beija e fecunda mas os místicos andaram pelos séculos construindo noites geladas solidões" Manuel da Fonseca 1 - A canção dos Deolinda "Parva que sou" parece ter despoletado as consciências para um problema há muito denunciado: a precariedade laboral. Refere-se, especificamente, à franja geracional que tendo formação superior não consegue entrar, em condições dignas, no mercado de trabalho. Em condições que lhe permita aceder a uma oportunidade de carreira, a ter um projecto de vida. Fala concretamente dos contratos a termo e a recibo verde. Gosto dos Deolinda e da Ana Bacalhau. Vejo, no entanto, nesta canção, a que já ouvi referir como o hino de uma geração, alguns perigos redutores. É redutor achar que o problema da precariedade atinge só uma franja da população: os jovens licenciados. O problema da precariedade atinge todos os que vivem nesta altura em que as regras do mundo laboral são, todas, definidas e alteradas tendo, unicamente, como fim precarizar os vínculos laborais em nome da produtividade. O problema da precariedade não atinge, única e exclusivamente, os que têm entre 25 e 35 anos e que possuem um curso superior. Atinge tudo e todos independentemente do nível de ensino e da idade. Atinge os que em nome da flexibilidade laboral são atirados para o desemprego e cuja faixa etária determina que são velhos demais para arranjar outro, ainda que a recibo verde, e que são novos demais para terem qualquer protecção no desemprego. Atinge todos os cidadãos independentemente da geração. Dando voz, efectivamente, a um problema real, falta nesta canção um refrão que lembre que a solidariedade intergeracional é a melhor, senão mesmo a única, forma de sobrevivência social. Falta, também, acrescentar que quando aceitamos todas as condições que nos vão sendo impostas em nome da crise e do mercado de trabalho, calados e sem protestar, estamos a contribuir para que a precariedade laboral passe a ser a norma e não a excepção. 2 - Estes últimos dias o país foi sacudido pelos casos dos idosos que morreram e que ninguém deu por isso. Confesso que custa e dói a solidão expressa nos casos relatados pela imprensa. Que país é este que abandona os seus idosos? Como é possível que uma pessoa tenha desaparecido durante 8 anos e que ninguém, sublinho ninguém, tenha dado por falta dela? Estranho mundo este, de facto, onde, um Estado que se diz social, trocou a solidariedade pela mesquinhez. Não a procurou, quando a denúncia do seu desaparecimento foi feita. Não investigou. Mas penhorou-lhe a casa e vendeu-a em leilão por falta de cumprimento das obrigações fiscais. A que ponto falta a tal solidariedade intergeracional quando aquele vizinho/a com quem nos cruzamos e até trocamos um bom dia ou boa noite, subitamente, desaparece e com um encolher de ombros fazemo-lo desaparecer, igualmente, das nossas vidas sem qualquer preocupação? Foram três casos relatados. Mas quantos vizinhos nossos vivem vidas de verdadeiros diálogos com a solidão? Com a ausência completa de uma mão que os afague, de uma voz amiga que pergunte se precisam de alguma coisa. E às vezes precisam de tão pouco: uma palavra de carinho e um sorriso para voltarem a sentir-se gente. Que civilização é esta que se desumanizou de tal forma que um ser humano morre e ninguém, dá pela falta? Desde quando nos tornamos descartáveis? Até quando vamos continuar a ser gente sem gente dentro?
Marília Azevêdo