Funchal. Uma manhã como as outras. Gente atarefada atravessa a ponte da ribeira, junto ao Mercado. Com semáforos nos dois lados da margem, amontoam-se pernas e pés vindos de um lado e de outro quando uma voz masculina se sobrepõe ao ruído do trânsito. Os rostos, meio adormecidos, voltam-se para uma figura masculina que impõe a sua presença de telemóvel colado à orelha. "Sim? Onde estou? Queres mesmo saber? Estou em Santa Cruz, junto à promenade. Mas não vale a pena vires ter comigo. Estou quase aí…", grita enquanto o sinal vermelho interdita a asneira. É óbvio que nesta equação entra a variável via-rápida. Digamos que nesta história, o "quase aí" é a verdade, isto se não ponderarmos os acasos. Fura pneu. Acidente que condiciona a velocidade e o "quase aí" foi-se. Mas voltemos ao local da acção. A mensagem bate-me na cabeça e por instantes questiono-me: "estarei eu fora de sítio?" mas logo troco olhares colectivos e sorrisos cúmplices. Alguém duvida da sinceridade subjectiva deste homem estar a falar a sério com uma pretensão de verdade? Eu. O homem está a mentir. Gosto desta palavra. Mentir. Como gosto da palavra desonestidade. São palavras claras. Válidas. Ele pode nunca ser "apanhado" por aquele/a que aceitou a versão de uma realidade distorcida. Mas o espaço social, não! Este fez uma interpretação. Ando mais uns metros. Vou a meio da Rua Fernão de Ornelas. Continuo a pensar no mesmo. Então aquele tipo passa por mim, no Funchal, e garante a outro (ser invisível para mim) que, afinal, encontra-se noutro concelho? Nesta era das comunicações rápidas, (quase) infalíveis, just in time, sempre presentes a qualquer minuto ¬(ficaste sem rede? Tiveste o aparelho desligado, porquê? Esta coisa tocou, tocou e tu nada, etc, etc. ) hão-de banalizar-se para um dispositivo de localização incorporado no próprio sistema. E lá se vai a liberdade, por culpa própria. Lembro-me de ter lido algures que a razão comunicativa é uma casca de noz periclitante e que os actos de fala podem ou não ser validados de acordo com três aspectos: não verdadeiros, incorrectos ou desonestos. Ora, aquele homem (e nós todos já o fizemos, sejamos honestos nem que seja porque não há paciência para conversas, "não te ouço, estou a ficar sem bateria", provou que um ouvinte, com base na observação, pode reconhecer quando as condições de verdade se encontram reunidas. Se extrapolarmos o exemplo para a esfera política, dos partidos e da governação, pode-se concluir, também, que qualquer comportamento possui valor pragmático significativo para quem o observa. E as reacções pavlovianas também se alteram.
Lília Bernardes, jornalista DN-Nacional, na Madeira