Um Cêntimo, uma Bigorna, uma Dor Tremenda num Banco em Pompeia. O meu um cêntimo de euro, que está num banco (nacionalizado recentemente, já à venda sem que ninguém o queira comprar) rende-me, há largos anos, muitos juros... tão só em papel. Não falha o solar raio do sistema: todos os meses, duma árvore, acho, lá vêm as folhas, o extracto, em papel timbrado, bonitinho e muitas vezes inchado com uma outra folha, mais brilhante ainda, com as novidades dos mercados sem fotossíntese. O sistema não me exclui automaticamente por falta de saldo médio acima de um cêntimo? Este meu metal é agora o símbolo desolado da minha solidariedade com centenas de trabalhadores que com a minha prestação como cliente é que não poderão ficar minimamente animados. Sou um gasto para o banco e a reestruturante administração ainda não me topou? Rói-me nada poder fazer por sérios trabalhadores que se encontram num limbo provocado pelo esquema da aldrabice mais atroz sendo que a maior parte dos mesmos não contribuiu para tal ruína. São Pompeia e o sistema continua a atirar-lhes cinzas, não ao edifício, mas para cima, aos poucos, dos trabalhadores de rostos ternamente disfarçados de amargura; a matar devagarinho um dom da humanidade: o de gostar, em tendo trabalho, de trabalhar. Dói-me isto as tripas, mas talvez ajude lembrar a administração para que não me envie mais papel todos os meses. Ou, um dia, entro de martelo e bigorna num balcão e hei-de de forjar aquele meu cêntimo com a poesia inteira que caberia nos papéis que tenho recebido e parafrasearei, de Shakespeare, Ricardo II ao ver-se deposto por seu primo Bolingbroke: - Já não importa. Não me falem mais em conforto, mas em túmulos, vermes e epitáfios. Transformemos em papel a poeira e sobre o seio da terra escrevamos com olhos inundados (....) falemos de histórias pesarosas sobre a morte de reis (...) Não, não deixarei incinerarem a minha moeda de um cêntimo de euro em cinzas tóxicas e com a minha profissão hei-de resgatar ao menos um trabalhador que seja ao desânimo. Estas letrinhas são dedicadas a todos os bons trabalhadores do BPN. Gostava, um dia, de ser um contista de ferro, dos que se enferrujam, oxidam, que têm de ser forjados, sim, batidos. Só isso. Se a corroer conseguir fazer poesia, tudo bem, senão prefiro apenas contar; que é o que faço com a minha profissão. Estou a falar de contagem mesmo. De adições. Nada mais. E quero martelar-me e ser martelado e bonito igual à bigorna.
Élvio Camacho, Actor