Abordei, em alguns dos artigos que tenho escrito para o DN-Madeira, muitas das transformações a que temos vindo a assistir no sistema universitário: a reforma de Bolonha e alguns dos aspetos do acesso ao ensino superior são exemplos disso. Através dessas reformas, a maioria das quais - diga-se - despoletadas de fora, o sistema universitário português, como os seus congéneres europeus, tem procurado responder aos novos desafios que as sociedades lhes vão colocando. Alguns destes desafios têm por objetivo alterar áreas de intervenção tradicional da universidade. Outros vão mais longe, mesmo não o parecendo. Enquadra-se neste caso, a questão dos "novos públicos" e, dentro desta, a necessidade de a universidade facultar novos tipos de formação. Cabem nesta categorização, duas iniciativas-tipo: os Cursos de Especialização Tecnológica (CET), para jovens que não entraram para a formação tradicional das universidades, ou para profissionais que se queiram reciclar, e as pós-graduações, vocacionadas para profissionais de formação superior que se queiram atualizar ou reciclar. Sobre a bondade de qualquer destas iniciativas, parece não haver qualquer dúvida, mas é interessante olhar para elas do ponto de vista da missão da universidade e procurar entender como aí as enquadrar. Analisemos apenas o caso dos CET. Antes do mais, é útil descrever de forma sucinta que cursos são estes. Tipicamente, trata-se de cursos com duração que varia entre 1 e 2 anos e que têm como objetivo uma certificação profissional de nível 4; isto é, acima do nível técnico-profissional e abaixo do nível de formação típico das Universidades. Estes cursos envolvem sempre uma componente de estágio em ambiente profissional e o tipo de formação conferida deve ter em atenção, sobretudo, a componente prática dessa formação. O nível destes cursos, faz com que tenha sido imposta uma condição prévia à realização destes cursos: a participação de uma instituição de ensino superior no processo, que deve publicitar a quais dos seus cursos poderão concorrer os titulares dos CET, indicando o que será creditado para efeito de continuação de estudos. Precisamente por terem estas caraterísticas, alguns países europeus reconhecem os CET como formação superior. A realização de um CET permite a muitos jovens o acesso à formação universitária por uma via menos tradicional. Abre, por isso, as portas do ensino superior a um novo tipo de público sem diminuir a exigência, e este só pode ser considerado como um facto positivo. Clarificada a bondade da formação e sendo de todo óbvia a sua necessidade, na Madeira como em qualquer outro lado, poderia pôr-se a questão de saber se a Universidade da Madeira (UMa) deve ou não proporcionar este tipo de formação. A meu ver, é nosso dever fazê-lo, por várias razões. Em primeiro lugar, porque os jovens madeirenses devem ter a possibilidade de a realizarem, quer para acederem mais rapidamente ao mercado de emprego, quer como etapa intermédia na aquisição de uma formação superior. Em segundo lugar, porque a UMa deve agir a mais de um nível para cumprir com o desígnio que levou à sua criação. No meu entender, só poderá cumprir com esse desígnio se agir a três níveis de atracção: regional, nacional e internacional. Ao nível internacional, o que pretendemos é receber estudantes de todo o mundo (região e país incluídos) em programas de grande qualidade e de elevado nível científico; já o fazemos em alguns mestrados e doutoramentos. Ao nível nacional, o que pretendemos (é um dos problemas que iremos atacar nos próximos tempos) é oferecer formação de 1.º e 2.º ciclos que alie à sua qualidade uma perspetiva diferenciada, quer nos graus quer nos modos de funcionamento, susceptíveis de atrair jovens de todo o país (região incluída). Ao nível regional, isto é, para públicos exclusivamente regionais, a UMa deve, sobretudo, procurar responder às necessidades mais imediatas. É o que faz ao oferecer os CET, ou um conjunto de pós-graduações direccionadas para sectores profissionais bem definidos. Só agindo a estes três níveis responderemos de forma cabal ao que a região e o país esperam de nós e que está bem expresso na declaração de missão constante do nosso Plano Estratégico (que pode ser consultado em http:/conselhogeral.uma.pt/) e que cito de forma resumida: (…) Existimos para preparar os nossos estudantes para os desafios da sociedade global, transmitindo-lhes conhecimento científico, competência técnica e uma formação transversal que os transforme em cidadãos do mundo, criativos e independentes, responsáveis e profissionais, tolerantes e atentos aos desafios ambientais, culturais e humanos duma sociedade que se pretende sustentável e equitativa. (…) Existimos para colaborar na evolução da Madeira e das comunidades envolventes, abrindo-as ao mundo, afirmando e valorizando a sua identidade cultural e respondendo às suas necessidades específicas no âmbito da formação, da investigação e da cultura. (…)
Castanheira da Costa, Reitor da UMa