
Vivemos num mundo de ‘escritores fantasmas’, de pessoas que escrevem e que assinam com outro nome, ou que vendem as suas palavras escritas para serem ditas com a convicção que são próprias e não de outrem.
No filme de Roman Polanski, o ‘escritor fantasma’ era aquele que era contratado para escrever a auto-biografia do primeiro-ministro inglês. Mas longe dos ‘thrillers’ de Hollywood, longe do sotaque escocês de Ewan McGregor ou irlandês de Pierce Brosnan, estamos rodeados de anónimos que dão as suas palavras a políticos, deputados, presidentes, ministros, secretários de estado, executivos... E a prova destas palavras emprestadas ou pagas está no recente incidente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros indiano S.M. Krishna leu por engano o texto do homólogo português, Luís Amado. Demorou três minutos para que um outro diplomata indiano interrompesse Krishna, que finalmente se deu conta do lapso. O curioso é que nem quando começou a ler uma parte do texto em que era feita uma alusão aos países de língua portuguesa, o ministro indiano se apercebeu da troca.
O caso não teve repercussões graves ao nível mundial, para além do embaraço causado e de imagens que têm sido divulgadas um pouco por todos os cinco continentes, mas pode servir de razão para pensar e questionar os discursos que nos são vendidos diariamente. Afinal como poderemos nós acreditar nas palavras deste ou daquele quando não sabemos se são mesmo suas ou compradas a alguém.
Num mundo em que as palavras valem tanto como uma imagem, quando conseguem viajar milhares e milhares de quilómetros através da Internet em apenas meia-dúzia de segundos, aqueles que melhor sabem cativar os outros com a escrita têm uma verdadeira arma entre mãos. É que com um bom discurso, consegue-se cativar multidões e afastar outras tantas. Meia dúzia de palavras bem medidas conseguem levar milhares de pessoas a nos amar ou a odiar. ‘Eu tenho um sonho’, ‘Sim, podemos’… se não temos a certeza que aquelas palavras são mesmo da responsabilidade das pessoas que as dizem, como poderemos nós acreditar no seu sentido?
Se calhar os fazedores de discursos, os escritores fantasmas que rodeiam políticos e governantes, deveriam ser, eles próprios, políticos e governantes, já que são eles que conseguem provocar salvas de palmas e levar multidões à loucura. Porque se quero acreditar nas palavras de outra pessoa, quero fazê-lo tendo a certeza de que são mesmo suas e não escritas ou fabricadas a metro.
E para que não haja margens para dúvida. Estas palavras são mesmo minhas, todas elas, sem excepção. Não as comprei, nem as plagiei e responderei por todas elas porque sei porquê e como as escolhi.