Há um ano, após a tragédia de 20 de fevereiro, fiz parte de um dos vários grupos de pessoas que se mobilizaram em iniciativas de ajuda à Madeira. O projecto em causa chamou-se Movimento Fãs da Madeira. Um ano depois, vale a pena prestar contas. Os Fãs da Madeira juntaram-se para fazer uma campanha publicitária. A ideia era simples: para além das razões que existem sempre para visitar a Região, depois das enxurradas havia uma razão extra - ajudar os madeirenses fazendo férias na Madeira, contribuindo assim para reanimar a economia regional. Em abril a campanha chegou às televisões, rádios, jornais e internet. Juntámos para isso dezenas de personalidades que deram a cara e emprestaram a sua notoriedade e credibilidade a esta mensagem. Foi um conjunto de protagonistas como raras vezes se viu numa campanha semelhante em Portugal, com reconhecimento e popularidade incontestada em diversas faixas etárias e sociais. De Marcelo Rebelo de Sousa a Maria Rueff, de Judite de Sousa a Rogério Samora, passando por nomes tão diversos como Kátia Guerreiro, Fátima Lopes, Rui Veloso, Fernando Alvim, Margarida Rebelo Pinto, Virgílio Castelo ou Camané. Dos cerca de trinta protagonistas da campanha, às muitas dezenas de pessoas que a planearam e concretizaram nos bastidores, ninguém ganhou um tostão - apenas deram o seu trabalho, tempo, know-how e boa-vontade. Julgo que nos podemos orgulhar do resultado. Para além dos anúncios inseridos gratuitamente nos espaços publicitários dos principais meios de comunicação nacionais, esta iniciativa teve um grande impacto nos noticiários. Segundo dados da consultora Cision, os Fãs da Madeira geraram mais de cem notícias, sobretudo na imprensa (51) e na televisão (29). Ou seja, a mensagem "Este ano vá de férias à Madeira" entrou nas notícias, a que as pessoas dão muito mais atenção e credibilidade do que aos anúncios. Ainda de acordo com a Cision, o retorno das notícias publicadas foi calculado em 1,1 milhões de euros. Tudo isto sem um cêntimo de dinheiro público. Creio que não está mal para quem começou com uma ideia e zero euros. Podia ter sido melhor? Pode sempre. A lição que importa retirar daqui - pelo menos, aquilo que retenho para mim - é esta: não existem homens providenciais, nem a sociedade tem de ficar à espera do Estado. A máquina do governo pode muito, porque tem os recursos que lhe damos e o espaço que lhe deixamos livre. Mas não pode nem deve paralizar os cidadãos ou substituir-se a eles. Uma sociedade que se pendura ao colo do Estado não é livre nem adulta; se se deixa ficar, à espera que o poder político lhe faça a papinha, depois não se pode queixar que não gosta da sopa - come e cala. Só uma sociedade civil que não se acomoda pode ser mais exigente com o poder político. Só uma sociedade civil que não se deixa entorpecer conhece o seu verdadeiro poder. Dá trabalho. Pois dá.
Filipe Santos Costa, Jornalista do Expresso