Augusta Martinho vivia sozinha em Sintra. A idosa de 87 anos deixou de ser vista em 2002 e as cartas começaram a transbordar na caixa de correio. Foi preciso o apartamento ser vendido num leilão das Finanças, por causa das dívidas, para que Martinha fosse encontrada morta na cozinha, junto ao esqueleto de um cão, única companhia que lhe restou na vida e na morte.
A notícia causa um incómodo profundo, como uma dor surda, mas violenta. As perguntas surgem-nos em catadupa. Como pode alguém morrer num bloco de apartamentos e ninguém dar por isso? Como pode alguém simplesmente desaparecer um dia sem que ninguém se importe em saber o que aconteceu? Nem um familiar próximo ou distante. Nem um amigo. Ninguém. Apenas uma vizinha tentou saber o que se passava. Chamou a polícia, mas esbarrou numa série de regras que ditam a normalidade dos dias. Regras que ditam que os cadáveres têm de ter cheiro, que a morte não pode acontecer assim, sem notícia. Que ninguém morre com o cão ao lado e fica esquecida durante nove longos anos.
Mas uma coisa são as regras com que tentamos delimitar a realidade dos dias, e, outra, completamente distinta, é a vida e a morte. Esses imponderáveis que desafiam todas as leis. A vida que é sempre surpresa. A existência que escapa à nossa lógica, às coisas arrumadas de um tempo que tem a ilusão de ter controlo sobre tudo.
Estranho mundo novo este em que vivemos, onde as redes sociais permitem-nos ter quatro mil e tal amigos, como se isso fosse possível. E, se calhar, até é, porque desses quatro mil e tal amigos seguimos os passos, as fotos dos filhos, as recordações das férias, os pensamentos, os estados de alma, o dia do aniversário. Vamos lá e comentamos, felicitamos, gostamos disto, não gostamos daquilo.
Mas esses amigos estão lá no computador e por lá ficam. Arrumados, distantes, sem contacto físico, sem maçadas, prontos a serem desligados, eliminados, ignorados. Tudo muito controlado, tudo muito certo, instantâneo, tecnológico.
Na ilusão de uma proximidade, acabamos por nos distanciar do mais humano que existe. E o mais humano é, sem dúvida, os que nos estão próximos. A vizinha do lado, do andar de cima, ou do andar debaixo. Sim, aquela pessoa que não está na nossa lista de quatro mil e tal amigos, mas que tem uma existência real ali no prédio em que vivemos. A vizinha da qual nunca vimos as fotos dos filhos, das férias, que não sabemos se gosta de cinema ou de música, mas com quem nos cruzamos todos os dias na escada, no elevador, no pátio.
Longe do computador, não lhe sabemos o nome, não lhe seguimos os passos. Passamos e esquecemos. E se um dia deixarmos de a ver, também não nos interessa muito. Numa rede social qualquer temos quatro mil e tal amigos à espera, com nomes, fotos, vídeos. Nem precisamos de nos envolver mais do que o mero exercício de passarmos por lá quando nos apetece, sem compromisso.
Depois, quando uma história destas vem a público, até podemos criar um movimento contra a solidão, contra uma sociedade desumanizada, contra este ser estrannho e estrangeiro de si que somos todos nós. Vamos lá e dizemos 'gosto disto' e cumprimos, sem sujar as mãos, o nosso dever para com a humanidade que nos escapa.