Confesso que, ainda a propósito das últimas eleições presidenciais, me repugna a impunidade política dominante e não vejo que uma certa atitude indeligente dos leitores possa significar uma certa cumplicidade com certas e pretensiosas incoerências. O acto eleitoral confirmou uma folgada vitória de Cavaco Silva sobre os seus mais directos adversários e, ao contrário de muitos comentadores, a alta taxa de abstenção não retira qualquer legitimidade ao candidato agora reeleito. A propósito dos resultados destas eleições, devo recordar um comentário, no passado, do nosso saudoso, contundente e irónico Raul Solnado que definia o reeleito Presidente da República desta forma lapidar: "Cavaco tem os defeitos que os portugueses gostam". No resto, a importância a realçar nos resultados destas eleições é a indicação que os ecos da "Revolução do Jasmim" chegaram à Madeira. E esta constatação ultrapassa a mera circunstância de um " coelho" saído da cartola. É bem mais do que isso - representa que algo está a mudar radicalmente, em termos políticos e sociais na Região. Quanto mais Alberto João Jardim desvalorizar estes resultados mais a situação se agravará em termos do exercício do poder por parte do partido laranja. Diz o povo: " mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". É mais do que isso, é uma ânsia incontida de mudar para um povo que não vê chegar a si as contrapartidas do crescimento numa terra que tinha tudo para se desenvolver harmoniosamente. Alberto João Jardim tem agora pela frente o mais importante desafio da sua já longa carreira política - inverter a marcha de uma situação particularmente adversa, o que só se faz com novas políticas e novos protagonistas. Até agora, as indicações não são as melhores, pois basta olhar para a "nova" Comissão Política para evidenciar uma falta de coragem que em tudo contraria os objectivos propostos e indispensáveis. As novas políticas e os seus protagonistas serão determinantes, em termos de futuro próximo, para abrir na sociedade madeirense um espaço de liberdade e democracia que são fundamentais não só a um novo folgo mas a uma "revolução" que tarda. Trata-se, para Alberto João, de desenvolver o censo de oportunidade e manifestar que sabe lidar com as transformações de uma sociedade onde um poder longo se fez sentir em mais de três décadas e nem sempre bem. Não sei se Alberto João Jardim será capaz de fazer da política instrumento eficaz de gestão política, económica e social. Não pode esquecer que o bom político é aquele que aprende a navegar e sabe caminhar entre escolhas, sempre atento à "meteorologia". E os ventos neste momento não são de feição… Alberto João Jardim não se pode alimentar, à partida, da esperança de contar para a história. Tudo começa e tudo se explica nesta base: o que virá a seguir é uma incógnita. Ninguém é capaz de fazer o desenho do seu destino antes de ele se cumprir e ninguém coloca um limite sem a isso ser obrigado. Tem Alberto João Jardim um projecto de futuro para a Madeira? Terá ele, no seu espírito, uma visão de um "mundo novo" que se traduzirá em factos, se dispusesse de dinheiro para isso? Este projecto deverá ser galvanizador e razoável e trazer à sociedade madeirense mais equidade, mais desenvolvimento económico e social e uma maior democraticidade. Sem isto nada feito. Olhando para este desafio, lembrar-me-ei sempre da fórmula sangrenta de Raymond Aron: " o drama do político é ignorar que a História é trágica".
José A. Roque Martins