Do Funchal ao Cairo vai uma distância superior a 4500 Kms. Aparentemente, não estamos tão perto dos acontecimentos que vêm abalando o mundo: a revolta dos jovens e populares da grande nação egípcia. Mas a revolta popular não toca apenas ao Egipto, nem começou por ali. A revolta atinge e alastra a todos os países da Região MENA (para usar o acrónimo inglês de Middle East and North Africa). Esta Região envolve, entre outros, países como o nosso vizinho Marrocos, a Argélia, a Tunísia e a Líbia, o Egipto e o Iémen, a Arábia Saudita, a Jordânia, a Síria. É um mundo árabe de economias emergentes, com a característica comum de conjugar um certo autoritarismo com um bom desempenho económico (crescimento de 5% ao ano entre 2000 e 2010). Esta característica de deriva presidencialista autoritária e bons resultados na economia não é, porém, exclusivo deste mundo árabe. É um padrão comum aos países da Europa do Leste e Euro-Ásia (da Rússia à Ucrânia e à Bielorússia, passando pelo Cáucaso do Sul e pelos Balcãs). Existe na América Latina (vide o caso da Venezuela). É também um tique que bem conhecemos na Região Autónoma da Madeira… Naqueles países árabes há uma combinação de factores que fez explodir as ruas. Primeiro a globalização, o mundo global em que se integram, deixou-os mais vulneráveis aos ciclos económicos. Depois a sua população activa cresce entre 2,2% e 3,7% ao ano (segundo dados revelados pelo Le Monde, num artigo "Monde árabe: l'agonie d'un système", 7 de Fevereiro de 2011), o que constitui um enorme factor de pressão para a capacidade de criação de empregos em número suficiente. As populações são, em, regra, jovens. As suas expectativas e exigências crescem com as redes sociais e a internet. A sua capacidade de mobilização também. A estes países diferencia-os ainda a dotação de recursos (nem todos têm petróleo…). Mas há algo importante em comum neles: parte dos recursos naturais e da riqueza económica é desviada para interesses privados sob a forma de corrupção ou de proteccionismo. Aquilo que o artigo do Le Monde chama de confisco das instituições do Estado por "sistemas de poder, dinásticos, de clã ou políticos". E acrescenta "para manter as suas redes clientelares, eles apropriaram-se de diferentes rendas: a renda petrolífera, depois outras, nas telecomunicações, no imobiliário, no turismo." Esta situação deve trazer-nos ensinamentos para a nossa própria realidade autonómica. Referirei apenas duas ilações. Primeiro, se a base económica de uma sociedade não for partilhada pelo conjunto dos cidadãos as probabilidades de revoltas aumentam exponencialmente. Toda a captura dos recursos colectivos por parte de clãs familiares e económicos deve ser fortemente combatida. E há um momento em que o despertar cívico pode ser violento. Ou como disse Victor Hugo, e que vi citado nestes dias no Público, "Ninguém pode resistir a uma ideia que viu o seu tempo chegar". Segundo, regimes de trinta e mais anos não são bons. Homens providenciais não são aconselháveis. Razão pela qual os mandatos dos governantes devem ser limitados no tempo e não renováveis. Queremos nós aprender alguma coisa com os acontecimentos?
Maximiano Martins