Há poucos dias ouvi um imberbe jovenzito nascido em 85 a dizer que tinha saudades dos anos 80... nascido em 85, marquem bem esta data. Pus-me a pensar de que raio tinha ele saudades. Das fraldas e do poder borrar-se pelas pernas abaixo sem que parecesse mal? Das papinhas? Do infantário? Das conversas cutchi-cutchi? Dos primeiros passos e das primeiras palavras? Mas parece que não! O que ele queria dizer é que lhe falta a estética "oitentista", a vivência daqueles anos loucos pré-informatização, os Spectrum, os Atari e os Commodore, e acima de tudo a música. Isto faz-me confusão... passei pela segunda metade dos anos 70, vivi intensamente os 80 e os 90 e conti-nuo loucamente a me agarrar ao novo século que me tem dado muito. Mas não tenho saudades... e podia. Claro que continuo a ouvir a intemporalidade de grandes nomes da música. Dos bons. Dos que nos enchem os ouvidos e a alma. Esta moda que se vai espalhando por todo o lado de um certo revivalismo preocupa-me. E preocupa-me porque no meio de algumas, poucas, coisas muito boas aparece muita porcaria que nós, os que vivemos mesmo nos 80s, não ouvíamos de tão más que eram... ou seja, eram más naquele tempo e são ainda piores fora do seu tempo, pois descontextualizadas. Não tenho nada contra os revivalismos, mas tenho contra o facto de se meter na mão de quem não percebe o tempo, as ferramentas que dão uma ideia errada de um período de grande riqueza musical e cultural, de profunda renovação intelectual que nos preparou para um novo milénio que começou a chegar nos idos dos anos 90. E acreditem que conheço pessoas que vivem para um tempo que não viveram, que sentem à distância e que por causa disso não olham à sua volta, absorvendo assim o seu tempo que é sempre o mais importante. É isso que faço. Viver cada momento como se fosse único e irrepetível sabendo que é o resultado de vivências e influências que vêm do passado e perspectivando sempre o futuro. Ah, e antes que me esqueça: não suporto modismos e é disso que tenho estado a falar!!!!
Nuno Morna, Actor