Os acontecimentos das últimas semanas, em países como a Tunísia ou o Egipto, obrigam-nos a reflectir sobre a adequação e os limites da matriz política predominante, agora que estamos cada vez mais a braços com as consequências generalizadas da colaboração em massa: a "era wiki". Na verdade, os levantamentos populares em curso nos países islâmicos do Norte de África, inscrevem-se no fenómeno wiki e expressam as dinâmicas e as consequências materiais da colaboração em massa, mas também os desafios e os riscos que essa mesma colaboração sustenta. As abordagens dos sistemas políticos a que estamos habituados, profundamente mecânicos, formalizados e lentos (face a ambientes pautados por uma extrema e contínua volatilidade), mostram-se fisicamente ultrapassados pela morfologia das redes. Dinamicamente conectadas e orgânicas, desprovidas de lógicas hierárquicas convencionais na participação dos seus agentes comunicacionais, as redes podem ser tão informais e espartanas quanto eficientes no que melhor sabem fazer: fluir conteúdos. E nem a praxis musculada ou as regras apertadas dos sistemas mais duros e politicamente menos abertos, como os ditatoriais, revelaram-se eficientes a travá-las. Efectivamente, não parece que os sistemas políticos tradicionais estejam a dar-se bem neste novo mundo colaborativo, em plena propagação, sobretudo, pela via geracional. Desde que Julian Assange colocou o Wikileaks a jorrar conteúdos diplomáticos, sem que nada nem ninguém conseguisse estancá-lo, foi também uma certa realpolitik que ficou a nú e revelou-se incapaz, nomeadamente, em assegurar a segurança da informação virtualizada, que na era wiki, é fisicamente impossível de garantir. Dá que pensar! Porém, nada do que estamos a assistir é novo ou não anunciado (basta recordar Alvin Toffler, Charles Andy ou Manuel Castells), mas não deixa de provocar espanto a passividade e a ilusão acalentada nos últimos anos pela acção política tradicional face a esta nova era da colaboração em massa. No caso egípcio, por exemplo, relembre-se que a única contra-medida momentaneamente eficaz, que o regime de Hosni Mubarak foi capaz de empreender face à mobilização wiki foi "crashar" o sistema, manietando as redes, barrando o acesso ao exterior. Só que tal abordagem mais não foi do que uma medida desesperada, própria de quem munido de um quadro mental caduco, face à realidade latente, apenas exibe uma acção insustentável. A utilização da estratégia do erro 404, como já é conhecido o embargo de 5 dias à net e às redes sociais no Egipto, traduziu-se numa reacção fugaz com um custo absolutamente insuportável. Barrar o acesso à net, numa época em que as soluções estão baseadas em redes, alojadas algures em nuvens computacionais, é o mesmo que deixar de respirar por instantes para evitar absorver os gazes que preenchem a atmosfera, ou seja, pode-se até suster a respiração como medida imediata fruto de uma reacção a quente, mas não como estratégia ou solução duradoura. Dito isto, permitam-me que esclareça o seguinte: não aceito acriticamente os benefícios da visão messiânica do mundo wiki, que se podem encontrar adstritos em algumas propostas dos seus ideólogos (como Don Tapscott e Anthony Williams), mas também não creio que possamos negar a magnitude dos fenómenos na rede e como estes estão a alterar profundamente o mundo em que vivemos. A meu ver, o cerne da problemática não é tanto sobre o fascínio com os meios digitais utilizados, nem com as novas oportunidades geradas via estratégias wiki, mas quais os valores que estão em parada com estas movimentações e, no limite, se serão reguláveis. Tratando-se de liberdade e de democracia, nada tenho a assinalar e contemplo interessado as façanhas wiki. As possibilidades do activismo e da democracia digital são fascinantes. Lembro, no entanto, por outro lado, que Assange já exemplificou -ou talvez ainda não em toda a sua amplitude- quais as consequências do poder wiki sem qualquer intermediação/regulação política. Uma wikicracia carece de wikipolitic, mas o fenómeno político, ainda excessivamente mecânico, formal, centralizado, partidário e hierarquizado, decorrente dos postulados clássicos de uma tradição política desenhada a partir de estratégias e estruturas físicas; e revela grande dificuldade em lidar com um ingrediente central, mas perfeitamente arbitrário, da novel vida (física e virtual) em rede: a participação individual aberta e colaborativa em tempo real.
Ricardo Fabrício