Artº 26º da Declaração Universal dos Direitos do Homem «1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. 2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. 3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos.» Depois de nesta Opinião, em Outubro e Novembro, não ter podido ter lugar a normal transcrição dos articulados da Declaração Universal, aqui se retoma esse compromisso através do artigo sobre a Educação e a sua importância na formação das mulheres e dos homens. Quis a sequência das coisas que este tema viesse a coincidir com um dos meses, Dezembro, em que pela cidade caminham 'carreirinhos' de crianças, pela mão dos professores, à descoberta de lugares, partilhando brincadeiras e cantigas, olhando as decorações das ruas. Pequeninos, nas suas batas escolares, de chapéu e casaco, lá vão eles passeio fora, numa alegre algazarra que se espalha na cidade e atenua, mesmo que não se dê por isso, o peso destes tempos difíceis e imprevistos. Quando tudo acalma, retomam os pensamentos preocupados. Como irá ser a vida para eles? Que mundo estamos a preparar? Até onde esticaremos a corda? Tudo está perigosamente estranho e não se desenham saídas. Há sempre uns teóricos de serviço que, numa linguagem cheia de termos de economia propositadamente incompreensíveis para a totalidade das pessoas, nos explicam que esta situação é resultado da globalização, que decorre dos mercados e da sua volatilidade. Costumam acrescentar que o 'mundo mudou' e que a crise veio modificar hábitos e modos de vida. Será! Mas que raio, onde ficam as mulheres e os homens - em especial os que pouco ou nada têm? Como ficam os que trabalham todos os dias - e que a meio do mês inventam milagres para chegar até ao dia 30? E os desempregados - para quem nenhuma diferença existe entre o dia 1 e o dia 31 de um qualquer Março ou Dezembro? Vivemos, e querem que vivamos cada vez mais, num mundo onde se acabam os direitos sociais apenas porque os mercados assim querem; onde não há solidariedade porque os governos, capturados pelas pressões e pelos interesses, se demitem de existir; onde não se respeitam as regras democráticas e a liberdade simplesmente porque, para a alta finança, elas não fazem qualquer sentido, não se justificam, nem existem. Querem convencer-nos que tudo o que está a acontecer é não só inevitável, mas a repetição de tantos outros fenómenos históricos. Que sempre foi assim e que foi nestas crises que a Humanidade evoluiu! Mentira. A Humanidade passou, de facto, por muitas convulsões, enormes, imensas, mas sempre tendeu a caminhar no sentido do bem comum melhor distribuído, Agora, é precisamente ao contrário: os povos são ignorados, as nações desprezadas, os governos manipulados. Nada disto tem a ver com melhoria das condições de vida, com qualidade ou bem-estar, com evolução e desenvolvimento. Esfumam-se valores e princípios, respeito e ética, numa tremenda e complexa teia de interesses, tecida em operações de especulação, suborno, corrupção, num sem fim de paraísos fiscais onde todos os esquemas são possíveis e se concretizam à margem de qualquer controlo e fiscalização. Não foi por este mundo, nem por esta Europa, que muitas gerações lutaram. Será preciso acordar e recomeçar, reganhar valores, reconquistar direitos. Será preciso, para que os putos que hoje correm nas nossas ruas tenham melhores Dezembros.
Violante Saramago Matos