
Bastou ouvir os primeiros minutos da alocução de hora e meia do presidente do Governo Regional, ontem, no Parlamento madeirense, para desvendar o mistério das três viagens secretas a Bruxelas em classe executiva, desde que foi eleito. Quando Alberto João Jardim se atirou ao sistema Merkozy com críticas aos comandantes da zona euro e aos impactos macroeconómicos nas periferias, ainda pensei se estava a sintonizar a rádio Comité das Regiões. Ou talvez fosse um trecho da entrevista na TVI (que eu não vi), num eventual comentário de antevisão do europeísmo que se decide na cimeira do Conselho Europeu, esta sexta-feira. Nada disso. Era mesmo a nota introdutória do chefe do Executivo madeirense, no arranque do debate do Programa do Governo Regional.
Um texto que foi também mais um tratado constitucional onde ficou evidente o défice de soluções, de objectivos e de compromissos, sem metas e sem prazos, como contrapartidas de um hipotético mas urgente resgate da dívida pública. Na qualidade de pedinte, órfão de um plano de reajustamento financeiro, fazem-se exigências de pagamento, procurando transferir, para os ombros da República, a carga da despesa pública de sectores como a Educação e a Saúde, como se ninguém fosse responsável pelo buraco de 6,3 mil milhões de euros que emergiu, em meia dúzia de anos, nestas duas ilhas atlânticas habitadas. Numa semana decisiva para desencruzilhar o sonho europeu, a Madeira não pode tardar a encarrilhar o seu próprio futuro nos eixos. Para tal, quem governa há 35 anos também tem de assumir as suas responsabilidades, os seus deveres e as suas obrigações.
Não pode, mas já descarrila. Mais ridículo do que termos um deputado do PTP, mandatado pelo povo, a ofender quem o elegeu para aquele lugar no Parlamento - preferindo filmar de ‘tablet’ os trabalhos no plenário e transmiti-los em directo sabe-se lá a quem e para que fim, em vez de defender os interesses legítimos e as aspirações de todos aqueles que ele representa - foi a relevância dada pelo presidente da Assembleia Legislativa da Madeira. Sempre aprendi, que os actos ficam com quem os pratica. Miguel Mendonça fez o papel melodramático e acabou por ser o realizador de mais uma curta-metragem de um filme cómico, para gaúdio dos animadores do circo. Foi o perfeito actor principal do filme do sr. Rocha. Ora chama pelos segurança, depois ameaça pedir à PSP que expulse o deputado ‘camaraman’, depois decide suspender a sessão plenária e, finalmente, decreta a proibição da utilização de aparelhos portáteis com câmara de vídeo incorporada. Tempo perdido, dinheiro do erário público mal empregue. E o circo deprimente e destrutivo da dignidade da democracia participativa prossegue quando há ainda muito por esclarecer. Uma comédia melodramática à beira do abismo a fazer lembrar aquela orquestra titânica que o maestro manda tocar enquanto o navio naufraga.