1-Quem não sente a vida às avessas, os dramas e o sofrimento de tanto cadáver, a desolação e a fome, as angústias e os pavores, os soluços irreprimíveis, as expressões trágicas, as faces ensanguentadas, as casas endividadas, os lares saqueados pela dor… Quem não ouve o coração confundido dos emparedados, encurralados, de olhos tensos, soterrados na prisão da vida… É preciso escutar esse fundo clamor daqueles que vivem sem chão, sofrem sem dizer nada, a desordem do sangue, a tormenta, a ingénua miséria, sossegada, ainda sem rebeldia. A quem não inquieta o silêncio conformado onde há palavras de morte? A quem não inquieta o silêncio conformado onde há a miséria, o luto, e outra vez a fome? 2- Leram o programa de governo? Cheira à terra podre destas ilhas encharcadas pela dívida. O dito programa de governo omite os dias brutais que se aproximam, esconde os tempos de servidão maior. Nele não se vislumbra a gente desamparada, agora atormentada, de rastos. Nele ninguém identifica as gentes afogadas na noite. Apenas uma charola de cegueira e cobardia. O programa de governo prolixo na descrição dos resplendores do ouro falso quer dissimular a decadência, a impiedosa podridão. Resultado do vil que impera, prenúncio do lamaçal que nos espera. O programa de governo mostra o velho no seu precipício, oxidado, desolado na noite que nos domina. Quem leu o programa de governo, quem ali colhe ilusões?
Edgar Silva, Líder do PCP-Madeira