Cá estou eu de novo a esgrimir ideias na senda de uma prosa que se encaixe neste dia que já não é de natal mas também não é ainda de fim de ano. E dou por mim a pensar quão ingrata é esta sensação de não ser carne nem peixe, de ser uma espécie de dia 28 de dezembro, em que não se acede ao estatuto de sobra de natal ou, se preferirmos numa linguagem eufemística, de primeira ou segunda oitavas, nem de véspera ou mesmo revéspera de fim de ano. Nada. Está-se simplesmente a meio, onde não há onde se firmar porque estar a meio é estar num lugar sem lugar, num enclave que, como enclave que é, não se consegue legitimar. E continuo a pensar… e paulatinamente vou percebendo aonde quero chegar… Sim, porque isto de escrever não é algo premeditado. É algo que se constrói de surpresas, algo que nos apanha desprevenidos, que nos surpreende, que, às vezes, não faz sentido e outras faz todo o sentido. Como este texto, que começou com um simples desabafo e que, progressivamente, se foi erigindo sozinho, autodeterminando-se, impondo-se à minha pessoa numa lógica que tem tudo a ver com este dia que, como já disse, não merece título nenhum e, por isso mesmo, não granjeia simpatias. E porque diabo me lembrei eu disto? Porque, em períodos como estes, eu não resisto a olhar com vagar para mim e para os outros. Assumo-o: o ser humano fascina-me, pelo que tem de melhor e de pior. E sei que vêm aí tempos que vão testar exatamente isso - o que há de melhor e de pior em cada um de nós. O velho 2011 está-se a extinguir. E fá-lo com a promessa de que o novo 2012 nos vai pôr à prova, principalmente a nós, classe média, que somos, se me permitem ir mais longe na desconstrução da metáfora, o 28 de dezembro deste país. Explico melhor: a classe média está a meio, nesse lugar sem lugar de que falávamos há pouco, porque não é suficientemente miserável para suscitar compaixão nem minimamente abastada para provocar bajulação. É simplesmente o bode, perdoem-me a alusão bíblica, que vai ao sacrifico nesta conjuntura que não provocou. E vai com o assentimento de uma nação que nunca gostou dele, do bode, porque, sejamos sinceros, Portugal olha sempre com desdém invejoso a quem faz por progredir… Mas volto ao que na minha opinião interessa. 2012, dizia eu, perspetiva-se como um ano perigoso, não só no plano coletivo pela austeridade anunciada, mas, sobretudo, no plano individual pelo teste que vai ser à lealdade, à cumplicidade e ao amor de cada um pelo outro. E chego agora, e finalmente, aonde queria chegar - à força das relações entre as pessoas. Repare-se que não me refiro à tão propalada solidariedade de rua, mas àquilo de que ninguém fala publicamente, que não é alvo de campanhas publicitárias nem de peditórios - a união entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs, amigos… É em tempo de crise que essa união é posta à prova, principalmente entre as pessoas minimamente esclarecidas que até há pouco gozaram de uma vida estável do ponto de vista financeiro. Voltamos, sem querer, à classe média… O interesse, infelizmente, comanda muitas relações. É fácil amar com dinheiro, difícil é continuar a amar sem ele; é fácil apostar na formação dos filhos com dinheiro, difícil é manter essa prioridade sem ele; é fácil ser leal aos amigos com dinheiro, difícil é apoiá-los sem ele… O próximo ano dará, por isso, conta das relações verdadeiras, fortes, sobreviventes, daquelas que, mesmo sucumbindo a momentos de desespero, se levantam e seguem em frente. 2012 exigirá de todos doses infindáveis de firmeza, de paciência, de amizade e, sobretudo, de amor, desse amor desinteressado que sobrevive à amargura e à má sorte, desse amor que nos enche a alma e nos faz voltar a casa no fim do dia. Fazendo o rescaldo do meu 2011, não tenho dúvidas ao afirmar que não foi um mau ano. Não contei com dinheiro a mais, é verdade, mas senti a presença firme daquele que é o meu núcleo. Reencontrei amigos, mantive os de sempre e, sobretudo, reconfirmei que não há nada mais importante do que as relações verdadeiras. E não peço mais senão que 2012 seja o ano da distinção entre o joio e o trigo, um ano sem 28 de dezembro, ou melhor, sem nenhum dia que eu sinta ou faça sentir a alguém que está num enclave, num lugar sem lugar, onde habita a solidão e não há um ombro em que se apoiar. Do resto, lá iremos dando conta.
Eker Sommer