O "chefe" anda a voar baixo porque, cansado e sem asas, não lhe resta senão a possibilidade quase rastejante; um outro só fala de milhões para os "senhores agricultores", numa diabólica azáfama diária por um minuto de televisão; a Senhora entretém-se com as pobres taxas de ocupação hoteleira, não com o futuro do sector; o lugar-tenente olha para os empresários aflitos e para as grandes obras do regime e sente um calafrio espinha acima de tirar o sono; outro, anda com o rosário das contas, dá a volta, percorre a cruz e regressa à estaca zero, pelo que lhe resta empurrar com a barriga; outro, ainda, jovem nas andanças, coitado, não vai além das promessas de diálogo, como se o sistema não necessitasse de grandes opções estratégicas, contas em dia, antes que a dita paz social estoire; finalmente, o tal da "troika" que não manda aqui, diz-se, que não há "alka-seltzer" que digira tanto problema. E assim se passam os dias e os meses, no meio de uma absurda paz podre, de decadência e falência político-administrativa, onde nem os cânticos da época que ecoam, prenhes de esperança, conseguem disfarçar o mundo das realidades sentidas. Pois é, a mentira tem sempre perna curta e o mal é alguns pensarem que o exercício da política é uma profissão. Ficam ali, amarrados, cristalizados e subservientes, porque o poder é uma espécie de estupefaciente, na esteira de Émile Chartier, quando sem controlo conduz à loucura. Dir-se-á que a alimentação do eu se sobrepõe à alimentação da sociedade. Concomitantemente, o apelo pela "máfia boazinha", esse pensamento anormal na condução da sociedade, torna-se superior aos desígnios de um poder ao serviço das pessoas. Tanto fizeram que, hoje, estão de cócoras, no meio de um deserto de ideias, escravos de si próprios, sem bússola que os oriente nem estrela que os conduza. Andam ao Deus dará, em estado de penúria e entregues à sua sorte.
André Escórcio, Ex-deputado do PS-M