Declarações prestadas pelo Primeiro Ministro Passos Coelho tiveram o condão de instalar a pública discussão numa zona da opinião publica em que já poucas coisas se mostravam pacificas. O erro que é apontado a Passos Coelho decorre de se ter pronunciado sobre as perspectivas existentes no mercado de trabalho interno relativamente a algumas classes profissionais, que é designadamente o caso dos professores, e ter deixado em aberto a possibilidade de aqueles a quem não se abrir a possibilidade de agenciarem trabalho no mercado interno o procurarem nomeadamente em Angola e no Brasil, países lusófonos com quem Portugal mantem muito boas relações politicas e comerciais, e onde este mercado não se encontra fechado. Vale a pena atentar que no último trimestre do ano em curso Alexandre Mestre, Secretário de Estado do Desporto, havia sido já crucificado por ter deixado escapar consideração semelhante. Não obstante ser sabido que muitos quadros estão a deslocar-se á procura de trabalho em direcção a países onde ainda se procura mão de obra qualificada - e não já mão de obra indiferenciada conforme aconteceu nos tempos da emigração a salto - parece difícil aceitar que quem tem responsabilidades nestas matérias se pronuncie sobre elas conforme agora aconteceu com Passos Coelho e antes acontecera com Alexandre Mestre, apontando a prospecção de trabalho noutros mercados como uma alternativa a um inelástico, mercado saturado e esgotado. Existe na verdade alguma coisa de muito grave nisto. Queixamo-nos de quem nos esconde a verdade mas depois comprazemo-nos a criticar quem, não a ocultando, nos diz aquilo que não gostamos de ouvir. O que não constitui uma atitude realista da parte de quem de há muito lida com a emigração. Foi assim com o Brasil, foi assim com os Estados Unidos e Canadá no que se refere á emigração oriunda dos Açores, foi assim com as outrora denominadas províncias ultramarinas então ainda territórios sob administração portuguesa, o que obstava a que com propriedade se pudesse falar de verdadeira emigração. E se é certo que a realidade que estes tempos anunciam não é, neste domínio, uma realidade sedutora, pode e deve reconhecer-se que, independentemente de uma conjuntura económica que nos é desfavorável, isto não corresponde a mais do que a uma consequência da globalização.Com a deslocalização dos factores de produção para onde a conjuntura se mostra mais favorável e benéfica. Haverá sempre quem não o queira compreender. Mas dizer-se, conforme tem havido quem diga, que quem tem por obrigação zelar pela defesa dos interesses dos portugueses os está a empurrar para fora do seu país, não é sério. Os problemas com que nos confrontamos não são especificamente nossos. Parceiros nossos na União Europeia e vizinhos de ao pé da porta, conforme é o caso da Espanha para já não falar de outros países também latinos conforme o são a França e a Itália, contam igualmente com legiões de desempregados para quem não existe solução á vista. Que saída se perspectiva para essas pessoas? Continuar a procura no mercado interno de soluções que apenas economias em crescimento podem viabilizar? Mas essa não é a realidade de uma Europa que poderá ver já no decurso do próximo ano a Alemanha - também ela - entrar em recessão. Essa é que constitui a nossa realidade, de nada adiantando camuflá-la. E numa conjuntura como esta, em que temos problemas com o desemprego de muitos dos nossos cidadãos e outros países de raízes lusófonas têm carência de mão de obra em sectores profissionais em que temos excedentes, reúnem-se as condições necessárias para uma interacção profícua em que todos terão a ganhar. Essa é que será ser a aposta em que deveremos empenhar-nos.
Carlos Sequeira