Nas últimas duas décadas temos vindo a desenvolver uma cultura de promoção do nosso destino turístico construída na venda de ilusões e falácias, em tudo contrária a uma cultura séria, de boas práticas, assente na promoção de sonhos e experiências com efectivas garantias autenticidade e concretização, para que as expectativas dos nossos turistas não sejam defraudadas e, se possível, sejam excedidas. "Destino de Excelência" é, efectivamente, aquele que responde com verdade às expectativas criadas junto dos públicos-alvo correctos e não o que promove conceitos "sofisticados" e ideais sem correspondência com a realidade, num processo de clara disfunção ética da nossa proposta promocional. Vejamos: Promovemos durante anos e anos as CASAS DE SANTANA como imagem central da Madeira ao mesmo tempo que MATERIALIZÁMOS, paulatinamente, a sua quase extinção, reduzindo-as a meia dúzia de exemplares museológicos. Promovemos cada vez mais FOTOGRAFIAS SÓ DE NATUREZA associadas à campanha de imagem de um "homem com os braços abertos dentro de uma flor" e, em simultâneo, MATERIALIZÁMOS mais "quota de mercado" de betão desordenado em prejuízo da "quota de mercado" da natureza preservada; Promovemos o "BODY MIND MADEIRA", conceito holístico de uma "ILHA SPA", construído numa campanha de imagens de natureza limpa de qualquer edifício, enquanto MATERIALIZÁMOS um destino marcado pela falta de harmonia e sossego do ordenamento do território, pela densidade e caos urbanístico e, futuramente, de turistas prisioneiros em hotéis all-inclusive - as novas pérolas da autofagia do nosso destino; Promovemos à exaustão os ideais de QUALIDADE e EXCELÊNCIA, MATERIALIZANDO ao mesmo tempo a degradação da qualidade do nosso serviço hoteleiro (com raras excepções de irrepreensível serviço) colando-o a preços de saldo cuidadosamente embrulhados em vaidades low cost; Promovemos o GLAMOUR, O CHARME E O ROMANTISMO DA ILHA e paulatinamente MATERIALIZÁMOS a destruição de inúmeras típicas "Quintas da Madeira" com belíssimos jardins que se estendiam às singulares "Casas de Prazeres" emolduradas em caminhos e becos pintados por flores espontâneas de ímpar beleza, activos estes, cada vez mais limitados às recordações do maravilhoso livro de postais "Memórias do Funchal" do Eng. Melim Mendes. Ainda há poucas semanas, e em total desrespeito pelo nosso património singular, permitiu-se a demolição de mais uma quinta na Av. do Infante. A insensibilidade fútil é, neste momento, a "excelência" da nossa cultura! Promovemos CULTURA e MATERIALIZÁMOS o desprezo pela tradição, pelo carácter do antigo, pelo património edificado e pelos produtos regionais - enfim, pela "personalidade" da Ilha; Promovemos as caminhadas nas LEVADAS e MATERIALIZÁMOS um ambiente propício ao roubo e à insegurança, de braços dados com "jardins de lixo", que ao longo dos percursos vão lembrando os turistas da nossa "excelência ambientalista"; Promovemos a DIVERSIDADE DA NOSSA PAISAGEM E VILAS e MATERIALIZÁMOS obras que tornaram os locais de atracção turística cada vez mais iguais uns aos outros, esvaziando-os da sua identidade e traça tradicional, num processo de pura banalização kitsch; Não satisfeitos, resolvemos contrariar os mercados que nos reconhecem de forma insistente como a "Pérola do Atlântico", inventando ano após ano (através de estudos bem pagos), novos slogans e assinaturas da Marca Madeira sem força e sem o mínimo de coerência estratégica. Ou seja, ambicionamos no discurso promover a ilha à imagem das Seychelles e materializámos uma imitação de destino inspirada no pior que há em Canárias. Tornamo-nos vendedores de sofismas, iludindo os mercados numa estratégia de promoção de falsas expectativas e vivemos encantados na ignorância da caminhada contínua da degradação da nossa competitividade. Depois ficamos admirados com os resultados! A vitória foi dos interesses do betão que infligiram uma estrondosa derrota aos interesses do turismo, pondo em causa a mina de ouro dos madeirenses. Mas ainda vamos a tempo! Haja convicções e a coragem necessária para iniciarmos um ciclo virtuoso requalificando a ilha em harmonia com as fotografias que idealisticamente andamos a promover.

João Welsh, Delegado da APAVT