Gostava de falar do cheiro da saudade. Da carne de vinha d ‘alhos comida numa sandes pela rua, enquanto se ouve um despique ao fundo e se sente o aroma único dos junquilhos à venda no mercado. As searinhas, os ensaiões e as cabrinhas e o musgo para compor a lapinha. E o licor que aquece e leva mágoas e tristezas para outros lados.

O Natal é a família estejamos onde estivermos. Mas a Festa é, de facto, na Madeira. E quem a vive de longe, como é o caso, sente o aperto no coração da nostalgia. E eu podia perder-me em descrições detalhadas de pormenores e bálsamos, que não seria exagero. Mas não consigo.

Talvez por estar longe da azáfama e frenesim festivo, numa terra onde nem luzes de Natal há, culpa da austeridade, que é o castigo para os gastadores, ou em abono da verdade, para os desgovernados. Aqui, na capital, olha-se o Natal com desconfiança, como se fosse o último tal como o conhecemos.

São tempos de incerteza, que os madeirenses começam também a sentir a pouco e pouco na pele. Os ‘atrasos’ no pagamento aos funcionários públicos - que nada mais foi que o fim de uma benesse, já que em no resto do país ninguém antecipa o pagamento de Dezembro para dia 19 – foi o primeiro baque, mas as coisas não ficam por aí, mesmo que as pessoas continuem a empurrar para debaixo do tapete, como aquele último lixo das limpezas da Festa, que já não dá tempo para apanhar.

Não há mais por onde esconder. E é por isso que hoje não consigo falar da belíssima noite do mercado e de um espírito que só sente no Funchal. Porque em dias de Festa, os madeirenses – que vão hoje percorrer as ruas alheados e esquecidos do que aí vem – mereciam mais. Ninguém diz que se lhe estragassem as Festas, mas a verdade seria a melhor prenda no sapatinho.

Por isso, perdoem-me os que já estão inebriados de espírito natalício insular, mas hoje, para mim, não pode ser a festa pela festa. E eu não compreendo porque é que os madeirenses não têm direito a uma mensagem do presidente em quem confiaram em Outubro e nos últimos trinta e muitos anos. Não percebo porque é que Alberto João Jardim não se demitiu – o que face às circunstância e enxovalho aconteceria em qualquer parte do Mundo – ou porque é que, ficando agarrado a um poder cada vez mais vazio, não explica que rasgos messiânicos usará para atenuar os duros sacrifícios impostos a quem o elegeu.

Não é só saudade o que sinto hoje. É também a angústia de saber que depois de hoje nada será como dantes. Aqui já não é, aí pode-se pensar que sim, mas essa ilusão tem um preço. Bom Natal!