Temos vivido nos últimos tempos constrangidos pelas más notícias que nos chegam. As boas, se é que existem, não conseguem sobrepor-se às mensagens ameaçadoras dos palradores de serviço, que a toda a hora, ou nos ameaçam com mais sacrifícios, ou nos sensibilizam para procurar fora o que já não conseguimos encontrar nas fronteiras territoriais deste país. Em vez da palavra de conforto ou de encorajamento, preferem nos dizer, de forma frontal e decidida, que é preciso fazer um intervalo neste exercício de cidadania. Face à desgraça nacional, não precisamos ser muito espertos para entendermos que o que temos de fazer, se pudermos, é mudar de ares… A incerteza está patente hoje em toda a vida nacional e é muito fruto desta instabilidade social. Por outro lado, a falta de atenção a classes desfavorecidas e desestruturadas, provoca uma espiral de insatisfação popular e violência que exige atenção redobrada, e no limite medidas punitivas e novas despesas para ampliar as cadeias, por exemplo. Uma troca anacrónica: o ministro da Educação diz que o Governo fechou escolas por falta de alunos, o que levou ao desemprego dos professores; a ministra da Justiça promete que vai conseguir arranjar mais 750 lugares nas cadeias portuguesas, possivelmente com o mesmo número de guardas prisionais… Atarefada nas guerras com o bastonário, a advogada e política que, finalmente, chegou a ministra, aproveitou uma entrevista para dizer, e bem, que “a corrupção mina a qualidade da democracia” e que “os titulares de cargos públicos acusados de crimes relativos a funções devem suspender mandatos”. Quase uma tirada “a La Palisse”. Mas ainda bem que o disse, porque as afirmações ganharam uma dimensão que pode ter um efeito pedagógico, por ser uma determinação de cima para baixo, de alguém que não quer, nem deve, pactuar, com as perversões do regime, mesmo que seja classificado de democrático. São demais e já aconteçam mais amiúde do que em algumas repúblicas da América Latina, onde esses acontecimentos eram, infelizmente, mais comuns. Neste tempo de Natal, o bom será tentar esquecer a situação real do País e da Região Autónoma, onde também têm caído todas as desgraças. Vamos procurar esquecer o que nos aflige e ganhar forças para ressuscitar no Ano Novo, mesmo que pelo calendário cristão esta seja a época do Nascimento de Jesus e não a da sua Ressurreição. A quadra natalícia não é a melhor época para gerirmos perdas. Os factos menos agradáveis que agora ocorrem marcam-nos ainda mais. Não estamos preparados para perder, seja o que for, nestes dias. A prática e os ensinamentos de uma vida inteira conformaram-nos para a celebração, para uns dias melhores que os demais, como prémio de um ano de trabalho. E é no confronto directo com as dificuldades e no arrebatamento com a realidade que a revolta se instala e se procuram os culpados. A análise, impiedosa e marcadamente egoísta, faz-nos atirar culpas a todos, menos a nós próprios. Temos de ser mais incisivos e perguntar-nos quais as razões deste descalabro se vivermos em democracia e num regime que nos permite escolher quem nos governa e de acordo com as nossas expectativas de vida e as nossas possibilidades. Podemos não ser os primeiros culpados, mas a verdade é que deixamos para os outros responsabilidades que deveríamos assumir e passos que deveríamos dar. Tudo fácil, quando visto de fora. Pode ser. Por isso, ou nos aplicamos cá dentro e defendemos as nossas ideias e pretensões, ou o melhor será emigrar, mesmo antes de confirmarmos que não há expectativas. Não será necessário um qualquer primeiro-ministro nos propor a viagem (já agora deveria haver um fundo europeu que subsidiasse a deslocação, a pretexto de menores custos nos subsídios de desemprego ou outras despesas sociais…), nem, no caso específico de estarmos marcados com o ferro de ilhéu, levarmos sempre com a mesma justificação de que a culpa é do outro lado do Atlântico, que não nos mandam dinheiro para vivermos “à grande e à francesa”. Tempo de reflexão e de distanciamento, não tão grande quanto desejaríamos. O ano de 2012 vai correr rápido para podermos pensar num melhor 2013. Desejo-vos umas Festas Felizes, razoáveis quanto muito, mas com muita esperança. Atenção aos animadores das praças que atrasam o passo do transeunte a pretexto de um qualquer truque novo ou de um número de circo, confiantes no coração generoso e na bonomia do passante: “Contribua com uma moedinha para podermos almoçar”… Afinal, o pretexto escondido e final de tal amabilidade.