"DOA-SE TÁBUAS, SARRAFOS DE MADEIRA. FRETE É POR CONTA DO COMPRADOR. (AS) MADEIRAS ESTÃO LOCALIZADOS NO BAIRRO MOINHOS DE VENTO DE FÁCIL ACESSO, SENDO POSSÍVEL A ENTRADA DE UM CAMIÃO PARA RETIRAR. A CARGA: O TOTAL DAS MADEIRAS DEVE DAR UMA CARROCERIA DE CAMIÃO CHEIA. A MADEIRA FOI RETIRADA RECENTEMENTE DE UMA OBRA E ENCONTRA-SE EM MUITO BOM ESTADO, DIGO NÃO ESTÁ PODRE OU COISA DO TIPO". Encontrei este anúncio na internet e dei por mim a sorrir. Um sorriso de encanto pelas palavras mas não pela imagem que estas provocam. As metáforas acordam sensações boas ou más. E esta é muito má. Falemos de outra Madeira, cujo estado inspira cuidados. Não sei se os Moinhos de Vento são ou foram de fácil acesso, não sei se está pobre ou "coisa do tipo", mas sei quem vai pagar o frete e entristece-me vê-la em tirinhas amontoada, pronta para ser levada sabe-se lá por quem, para onde e para quê. Afinal, o que é que aconteceu? Que desmoronar é este? Quem fez desabar a parede mestra? O meu receio, legítimo, é pensar que poucos se importarão em fazer uma análise séria às verdadeiras razões que provocaram o colapso dos alicerces. A implosão. Para além das decisões tomadas, certas e erradas, há erros de palmatória que se cometeram. Péssima comunicação interna e externa, declarações bombásticas a propósito de tudo e de nada, falta de informação, más relações públicas, comportamentos e atitudes arrogantes, ausência total de lobbying e marketing político (e aqui enquadro o Centro Internacional de Negócios). Há quem confunda marketing político com marketing eleitoral. O marketing político, e é esse que me interessa neste momento, é algo mais permanente; está relacionado com a formação da imagem a longo prazo. Por vezes, pergunto-me o que fez estes anos a Representação Permanente da Madeira em Lisboa? Nada. No Continente, ninguém sabe como funcionam as autonomias. E quando digo ninguém, é mesmo ninguém. Para além deste vazio, foram utilizadas técnicas discursivas erradas tendo em conta o espaço de conflito e de confronto em que são convocadas a actuar. A falta de competência de uma racionalidade argumentativa não se compadece com o papel crescente que a opinião pública vem desempenhando no encaminhamento das decisões. Tudo foi descurado, talvez porque demasiado centralizado numa figura, em que se secundarizou a administração dos conflitos, com a aceitação das diferenças e do respeito pelo outro. Haverá ainda tempo de inverter o cenário? Não sei. Para tal, são precisas mudanças e novas posturas por forma a ultrapassar uma crise de credibilidade e de confiabilidade nos poderes públicos e no tratamento da informação. Neste momento, a Madeira deveria ter um gabinete de gestão de crise. Não tem. Termino com a citação de um artigo de Maria Gabriela Gama, in Comunicação e Sociedade 2, Cadernos do Noroeste: "Quando uma situação de crise ocorre na empresa, resultante de falhas que lhe são directa ou indirectamente imputáveis, a sua imagem é colocada em causa. Isto obriga a tomadas de posição acertadas e atempadas. Tudo é extrapolado para o exterior e a opinião pública irá ajuizar o modo como a empresa soube ultrapassar a situação crítica". Mais importante ainda: " negar a existência de uma situação de crise quando esta ainda não é visível pode acarretar consequências nefastas que transpõem largamente as fronteiras da empresa". Substitua-se no texto "empresa" por "governo regional" e veja-se o resultado. * Jornalista DN-Lisboa, na Madeira

Lília Bernardes *