Há um retrocesso histórico neste País que cria fracas expectativas para o futuro de todos nós: o valor do trabalho e a importância dos trabalhadores no tecido empresarial e social são hoje questões secundárias num debate dominado pelo capital e pelas perspectivas que se apresentam ou pelas propostas que se configuram para solucionar o resgate do País. A penalização maior caiu sobre os trabalhadores por conta de outrem: as reduções de quadros profissionais, a limpeza dos subalternos, e o encurtamento de meios para os mesmos níveis de produção, a pretexto da redução de custos. Enfim, tudo isso está a dizimar a classe média portuguesa. A maioria das soluções apresentadas são redutoras e até as melhores empresas procuram, assustadas ou ameaçadas pelos efeitos da contenção, produzir com menos meios e satisfazer os seus clientes com quadros e serviços mais reduzidos. Há uma questão, contudo, que eu gostaria de focar e que deveria merecer uma análise atenta: que se passará com aquelas empresas que reduziram quadros, que aproveitaram, de forma oportunista a situação de crise instalada, e dispensaram pessoal ou reformularam quadros, preterindo uma melhor prestação ou um produto melhor elaborado, e que no final do exercício apresentarão ainda mais lucros do que no passado? Desconfio que ganharão um prémio de gestão, pela forma como enfrentaram a crise e reverteram a ameaça em lucro… Domingos Azevedo, bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, na passada semana, alertou alguns profissionais que com ele estavam, a pretexto de homenageá-lo, para a função social das empresas e para os deveres éticos e sociais dos empresários. Porque, alertou o bastonário, se é verdade que há gente muito boa, há, como em todas as sociedades, outro tipo de gente, oportunista e incumpridora, que nestas ocasiões, olha as janelas de oportunidade com a frieza e a arrogância das feras nas suas caçadas em plena savana… Tanta insolvência e tanto desempregado. Que fazer?! Agora é tarde… Mas quem não pagou a horas e que provocou o descalabro deveria ser condenado sem apelo, nem agravo. Esse seria o primeiro passo… antes de culpar os que nada prometeram e que agora se pretende colocar no rol dos incumpridores. E nesta terra pequena, super dependente, todos sabemos quem nos corta as pernas, quem trava a ambição e frusta carreiras profissionais de jovens preparados e com níveis de formação superior, que quiseram regressar a casa e que hoje deambulam pelo mundo à procura de emprego, mesmo que seja a lavar pratos em Londres ou a apanhar morangos em Jersey. Trabalhos dignos e decentes, como quaisquer outros, dirão os cínicos já instalados…
Ei-los que partem! E agora, mais do que nunca. “Ei-los que partem, novos e velhos, buscando a sorte noutra paragens, noutra aragens…” como tão bem cantava Manuel Freire. Noutros tempos de uma ditadura, de uma pátria e de um povo cinzentos e de um regime fascista… Contudo, com algumas assustadoras semelhanças que atordoam quem pensa no tema e aspira outro futuro, com dignidade e sucesso.