Definitivamente aceite é a conclusão que compreender o nosso tempo é compreender a distância existente, e coercitivamente mantida, entre a história real e a história oficial, entre a realidade do que é do que constitui realmente a totalizante existência do actos do nosso quotidiano individual-colectivo e a importação codificada do que não mais nos define, ou porque já o deixamos de ser ou porque na verdade nunca o fomos. É como se o nosso bilhete de identidade ou passaporte nada mais tivesse haver connosco e, perplexos, víssemos que as "evidências " nelas anotadas que a valorização nelas estabelecidas, representavam apenas uma negação da nosso própria realidade, um doloroso adiantamento do nosso próprio ser. Com as características do nível de desenvolvimento de cada região ou país, este, aliás, é o drama não somente do homem português, mas do homem do nosso século o qual, a partir das profundas transformações que teve no conhecimento da vida e do mundo, vê-se ainda obrigado a viver "inautenticamente", longe de si mesmo e dentro de uma escala de valores que sabe agora não ser mais a sua, e que, por isso mesmo, apenas o aprisiona e o detêm. Tudo é erigido em concerto sagrado, cuja aceitação de nota espírito rasgado, moderno, progressivo e cuja rejeição denuncia espírito retrógrado, conservador e imobilista. Não se repara, todavia, que estas inovações são meramente vocabulares, e que são lançadas por outros para esconder ou mascarar os seus propósitos reais; e nisto também não é nova nem original a nossa época, porque em todas sempre os homens sofreram, lutaram e morreram por frases e vocábulos. Quando o maior perigo que nos espreita é a obsessão colectiva com a crise dos equilíbrios financeiros e as medidas de austeridade que nos estão a ser impostas, a ponto de paralisar toda e qualquer iniciativa no âmbito da promoção de uma estratégia de desenvolvimento da economia real a sensação que nos fica é que tudo nos é imposto ao sabor de princípios formulados fora do país e interesses que não são os nossos; e o povo procede assim sem saber o que sejam teses e mensagens humanitárias, nem escrúpulos morais, nem correntes intelectuais, nem afinidade ideológicas de regimes políticos ou sociais, nem interesses de classes ou grupos, nem internacionalismos messiânicos (sejam de direita ou de esquerda), nem mitos destinados a salvar o homem universal, nem conceitos que se propõem garantir o bem da humanidade una, indivisível e solidária. De facto, quando se procura, por razões de eficácia, substituir a política democrática pela tecnocracia correm-se o risco de resvalar para a ditadura. A desumanidade começa quando a cura das finanças não se importa com a sorte das pessoas. Quando as respostas à crise são centradas na austeridade e por isso são duplamente desadequadas aos objectivos que dizem querer atingir e às finalidades do bem-estar social. Mas há outras formas de desadequação ou de irracionalidade que perduram no tecido social e coroem as possibilidades de desenvolvimento como por exemplo o abandono prolongado das terras de cultivo. No momento em que aceitamos a linguagem perversa de que não há alternativas, deixamos o campo livre ao determinismo mais imbecil, optando pelo grau zero do pensamento, desistindo da condição humana. Neste sentido a importância do Conselho Europeu que ontem se iniciou, onde os valores centrais da Europa não podem ser ignorados: paz, liberdade, tolerância, democracia, humanismo, solidariedade… Em plena catástrofe o que se pede a cada político é salvar a essência da política - o bem comum em liberdade. Não posso deixar de referir que a minha geração se abriu para a política nos anos 60 olha para tudo isto atónita mas não resignada. Se esta crise é financeira não deixa de ser também política e de valores. No desenrolar das mais graves crises da nação o povo português tem constituído a poderosa reserva moral do país e não será agora, dentro deste quadro, que a política morre. Antes pelo contrário, a sua urgente necessidade se faz sentir, se a entendermos tal como ela pode e deve ser entendida hoje: pensar é transformar-se a si própria e ao mundo, a si própria enquanto mundo. Será importante refundar a Europa mas, mais do que tudo, é importante "revigorar uma democracia que na prática se perdeu na alienação e na ilusão".

José A. Roque Martins