É incrível como se agrava o fosso entre cidadãos e partidos políticos. Mais incrível ainda é a forma desinteressada como as pessoas olham para a política. Como se não fosse nada com elas, como se não fôssemos nós, contribuintes, que pagamos do nosso bolso a fantochada crescente a que temos assistido. O debate do programa de Governo, na Assembleia Legislativa da Madeira, foi apenas mais um exemplo de como o Poder e alguma Oposição brincam com os cidadãos. Divertem-se e até nos divertem também. Eu, confesso, dei por mim a rir com piadas que lá foram ditas, mas isso não me impede um olhar sério quando se trata de pensar no que andam algumas almas a fazer com o dinheiro dos contribuintes, com os meus e os seus impostos. E coisa boa nem sempre é com certeza! Quando a Região enfrenta as mais sérias dificuldades da história da Autonomia - ou da autonomia que passou à História - gente paga pelos cidadãos que não respeita, brinca com a situação. Faz troça de quem trabalha, de quem tem responsabilidades, casa para pagar, família para alimentar e outras necessidades básicas. É um ausente presidente do Governo que aterra de Bruxelas, onde não se sabe bem o que foi fazer, e vai à Assembleia como se fosse à tasca do lado mandar umas larachas. Que encara um plano de austeridade que nos vai impor, e muito por culpa dele, com uns palpites semelhantes aos que dizem os adeptos de clubes de 3.ª divisão perante um jogo a feijões. E é, quase tão grave como isso, alguma Oposição que anda nisto para se divertir, que estraga importantes denúncias com 'números' nada dignificantes e que só dão jeito a quem não quer debates sérios. No meio deste cenário pouco edificante para a classe política regional e, sobretudo - temos de o reconhecer, para os madeirenses que dizem que não ligam à política -, a semana termina com uma cereja em cima do bolo. Que se resume numa simples mas cruel frase: enquanto a esmagadora maioria dos madeirenses é obrigada a apertar o cinto, os partidos desbaratam. Gastam à tripa forra, como se ainda nadássemos em dinheiro. Isto é incrível, para não dizer repugnante mesmo. Enquanto os cidadãos são obrigados a fazerem sacrifícios e a verem a vida a andar para trás, suas excelências os partidos (uns mais do que outros) decidem que vão continuar a viver à grande. Ou seja, os que nos cortam nos salários e nos subsídios, que nos aumentam os impostos, que nos tiram poder de compra, que nos atrapalham a vida... são os mesmos que acham que nos privilégios deles não se pode mexer. Será isto possível? Sim, é! Claro que é! Porquê? Porque nós permitimos estas palhaçadas. Porque nos demitimos de participar, de denunciar, de criticar, de elogiar até se for o caso. Este povo superior, afinal, quer é o quentinho, nem que tenha de trocar a cama de esponja por um monte de restolho. O importante, para a maioria dos madeirenses, é não fazer ondas. É deixar andar. E, assim, feitos parvos (ou parvos mesmo) lá vamos, cantando e rindo ladeira a baixo. Sempre para baixo! Rindo de nós próprios, aí sim, em coro com quem de facto manda nesta terra. Nós rimos deles, dos políticos que pouco fazem, como eles se riem a bom rir dos que se acham inteligentes porque não querem saber dessas coisas da política. Esta semana foi rica em termos políticos: primeiro aquele 'debate' sobre o programa de Governo que não vai governar; depois a constatação de que as explicações da Carochinha que Jardim deu na Assembleia abriram uma guerra total com Lisboa a troco de nada; e, depois ainda, com a triste confirmação de que é preciso aumentar impostos, que eu e você vamos pagar ainda mais. Quando pensava que já tinha visto quase tudo, fiquei a saber que o Orçamento da Assembleia para o próximo ano, que será marcado por cortes a vários níveis e para todos os trabalhadores, nem sequer mexe no 'jackpot' dos partidos. São os mesmos 5,3 milhões de euros. 5,3 milhões de euros! Mais de um milhão de contos, na antiga moeda. Olho para estes números e lembro-me da canção dos Deolinda sobre as dificuldades da actual geração. De facto, que parvos que somos!