Outrora o motor das mudanças, a juventude está hoje reduzida a um grupo de seres obedientes, receosos e divididos O conformismo é um sério candidato a epidemia social do século XXI de contágio fácil entre os jovens, grupo no qual eu me incluo. Talvez por isso, considero este exercício de reflexão um auto-retrato, por mais que me custe aceita-lo. Perceber que a organização política, económica, financeira e até social das civilizações ocidentais tem propiciado o vírus da apatia que cultiva um colete de forças à contestação, neutralizando a natural propensão dos jovens para a rebelião, não fosse a juventude o motor de sucessivas mudanças ao longo da história. Entender que os Estados ditos modernos constroem não um exército de cidadãos activos - pensantes e críticos, predispostos a desafiar aquilo que teima em ser assimilado como o óbvio e o inevitável - sem a preocupação de confrontar as coisas comuns com as causas próprias, mas um agrupamento de seres obedientes e cativos, receosos e divididos. A escola deixou de ser uma instituição que ensina para se tornar num sistema de educação. E não é sistema por acaso. Quando foi distinguido com o prémio de professor do ano em Nova Iorque, John Taylor Gatto, até então, um obediente docente do sistema, resolveu atirar uma pedrada no charco. Emudeceu o público com uma declaração que talhou o orgulho do sistema de ensino norte-americano que, na sua génese, pouco difere do europeu: “A verdade é que as escolas não ensinam nada, a não ser obedecer. Isto para mim é um grande mistério porque há milhares de pessoas, humanas e empenhadas em trabalhar aqui como professores, auxiliares ou administradores, mas a lógica abastrata da instituição acaba por esmagar os seus contributos individuais”. Mais do que uma aula aos catedráticos ou uma interessante dica para uma tese de mestrado, esta corajosa observação é uma lição para o mundo. Uma lição não só para as escolas que se dizem autónomas e onde os professores avaliam mas não se dão a avaliações, como também para as organizações políticas de juventude, onde há autoridade a mais e democracia a menos. Algumas delas mais vocacionadas para controlar e vigiar os movimentos democráticos de contestação nos mais variados meios e para censurar qualquer tentativa de desafio à classe dirigente do que para encorajar a participação cívica dos jovens que dizem representar mas não tocam. É ver a diferença que há entre aquele “ou eu ou o caos”, proferido ontem por Silvio Berlusconi em Itália e o “Ou Jardim ou a desgraça” que resigna a Madeira há 33 anos? Os filhos do 25 de Abril herdam uma austeridade sem precedentes com cobrança a longo prazo. Não raras vezes ouvimos os desabafos dos nossos velhos: “eu daqui a uns anos saio, tenho pena é dos novos, que cá ficam”. E compreendem-se os motivos. A cultura do medo continua bastante enraizada. São os mais novos que terão de pagar, durante uma vida inteira, a factura pelos excessos das carreiras contributivas milionárias, suportando ainda o ónus de uma dívida pública contraída por uma geração que não a sua e que já foi repleta em benesses e mordomias. Mais do que ninguém, são os futuros contribuintes que sentirão a longa maratona com a precariedade laboral nos ombros, tentando fintar uma vida que de repleta, só se for de instabilidade. O Estado exige aos jovens trabalhadores mais contributos financeiros para que possa pagar as reformas a uma população tendencialmente envelhecida, quando a própria Segurança Social não só se demite de apoiar a natalidade como também se iliba da obrigação de, daqui a 20 ou 25 anos, proporcionar o mínimo de dignidade à velhice dos jovens de hoje. Que subscrevam planos de reforma nas seguradoras, sugerem eles. As universidades confundem-se com indústrias de formação profissional e o desemprego qualificado é sacudido para a saída de emergência mais próxima: a emigração. Mais do que a maioria dos habituais contestários sindicais, que funcionam como resistentes da mudança em defesa de interesses já instalados, os jovens não têm representantes e têm de assumir as suas próprias causas e serem os promotores da mudança. É preciso desmilitar este exército de resignados e convocar os jovens para o presente porque eles também contam num país de velhos. Faz falta esta afirmação nas ruas, nas assembelias, através das mais variadas formas de manifestação do pensamento, de expressão das convicções, dos ideais: pela artes, pela música, pelas palavras ditas ou escritas.

Outrora o motor das mudanças, a juventude está hoje reduzida a um grupo de seres obedientes, receosos e divididos

O conformismo é um sério candidato a epidemia social do século XXI de contágio fácil entre os jovens, grupo no qual eu me incluo. Talvez por isso, considero este exercício de reflexão um auto-retrato, por mais que me custe aceita-lo. Perceber que a organização política, económica, financeira e até social das civilizações ocidentais tem propiciado o vírus da apatia que cultiva um colete de forças à contestação, neutralizando a natural propensão dos jovens para a rebelião, não fosse a juventude o motor de sucessivas mudanças ao longo da história. Entender que os Estados ditos modernos constroem não um exército de cidadãos activos - pensantes e críticos, predispostos a desafiar aquilo que teima em ser assimilado como o óbvio e o inevitável - sem a preocupação de confrontar as coisas comuns com as causas próprias, mas um agrupamento de seres obedientes e cativos, receosos e divididos.

A escola deixou de ser uma instituição que ensina para se tornar num sistema de educação. E não é sistema por acaso. Quando foi distinguido com o prémio de professor do ano em Nova Iorque, John Taylor Gatto, até então, um obediente docente do sistema, resolveu atirar uma pedrada no charco. Emudeceu o público com uma declaração que talhou o orgulho do sistema de ensino norte-americano que, na sua génese, pouco difere do europeu: “A verdade é que as escolas não ensinam nada, a não ser obedecer. Isto para mim é um grande mistério porque há milhares de pessoas, humanas e empenhadas em trabalhar aqui como professores, auxiliares ou administradores, mas a lógica abastrata da instituição acaba por esmagar os seus contributos individuais”. Mais do que uma aula aos catedráticos ou uma interessante dica para uma tese de mestrado, esta corajosa observação é uma lição para o mundo. Uma lição não só para as escolas que se dizem autónomas e onde os professores avaliam mas não se dão a avaliações, como também para as organizações políticas de juventude, onde há autoridade a mais e democracia a menos. Algumas delas mais vocacionadas para controlar e vigiar os movimentos democráticos de contestação nos mais variados meios e para censurar qualquer tentativa de desafio à classe dirigente do que para encorajar a participação cívica dos jovens que dizem representar mas não tocam. É ver a diferença que há entre aquele “ou eu ou o caos”, proferido ontem por Silvio Berlusconi em Itália e o “Ou Jardim ou a desgraça” que resigna a Madeira há 33 anos?

Os filhos do 25 de Abril herdam uma austeridade sem precedentes com cobrança a longo prazo. Não raras vezes ouvimos os desabafos dos nossos velhos: “eu daqui a uns anos saio, tenho pena é dos novos, que cá ficam”. E compreendem-se os motivos. A cultura do medo continua bastante enraizada. São os mais novos que terão de pagar, durante uma vida inteira, a factura pelos excessos das carreiras contributivas milionárias, suportando ainda o ónus de uma dívida pública contraída por uma geração que não a sua e que já foi repleta em benesses e mordomias. Mais do que ninguém, são os futuros contribuintes que sentirão a longa maratona com a precariedade laboral nos ombros, tentando fintar uma vida que de repleta, só se for de instabilidade. O Estado exige aos jovens trabalhadores mais contributos financeiros para que possa pagar as reformas a uma população tendencialmente envelhecida, quando a própria Segurança Social não só se demite de apoiar a natalidade como também se iliba da obrigação de, daqui a 20 ou 25 anos, proporcionar o mínimo de dignidade à velhice dos jovens de hoje. Que subscrevam planos de reforma nas seguradoras, sugerem eles. As universidades confundem-se com indústrias de formação profissional e o desemprego qualificado é sacudido para a saída de emergência mais próxima: a emigração. Mais do que a maioria dos habituais contestários sindicais, que funcionam como resistentes da mudança em defesa de interesses já instalados, os jovens não têm representantes e têm de assumir as suas próprias causas e serem os promotores da mudança. É preciso desmilitar este exército de resignados e convocar os jovens para o presente porque eles também contam num país de velhos. Faz falta esta afirmação nas ruas, nas assembelias, através das mais variadas formas de manifestação do pensamento, de expressão das convicções, dos ideais: pela artes, pela música, pelas palavras ditas ou escritas.