A Federação Nacional para a Alegria no Trabalho surgiu em 1935 e foi um poderoso instrumento de propaganda cultural. Tutelava a música, o teatro amador, o folclore e ainda o desporto não federado. Ficaram célebres os seus espectáculos pelas diferentes cidades do país. Apoiavam a deslocação de grupos folclóricos, bandas de música, coros, orquestras várias e de um modo geral todas as colectividades que aderissem à sua esfera de influência. Tomando como fontes o autor José Carlos Valente em 'Tempos Livres' (Edições Colibri) e os trabalhos de investigação do historiador Fernando Rosas, é possível recriar a gigantesca máquina da FNAT. As visitas de estudo, os cursos profissionais, a instalação de bibliotecas populares entre outras iniciativas, tudo servia para cativar em rede não só os trabalhadores como os estudantes e o público em geral. As colectividades que não aderiram foram marginalizadas, resumindo a sua existência, à sua sede social. Nos espectáculos e actividades, segundo os autores citados, participavam também a Mocidade Portuguesa (com carácter obrigatório dos 7 aos 14 anos de idade), Juventudes Católicas e Escutismo Católico. Extinta em 1974, o seu pensamento perdurou, no que diz respeito à organização em rede e à tutela política. Por todo o país, as colectividades substituíram o apoio FNAT, pelo subsídio da Câmara Municipal, custando por vezes a sua própria independência. Nos Açores, é possível distinguir as colectividades e sociedades musicais que floresceram no tempo de Mota Amaral e que secaram com o novo governo de Carlos César. Por cá, falta fazer esse balanço. Mas temos os exemplos da Festa da Flor, do Ateneu Comercial do Funchal e o Carnaval Madeirense (dos hotéis, bandas de música e colectividades) que simplesmente desapareceram, por acção de um binómio 'turismo e animação', nos anos 80. Não nos podemos também esquecer, que os dirigentes pós-autonomia, eram jovens adultos nas décadas de 60 e 70 e que as suas personalidades foram moldadas por essas organizações. Por isso, a voz activa de cada um de nós, deve ser o contraponto para uma rede cultural saudável.
Vítor Sardinha, Músico