«Guilherme Albuquerque França (…) vai queixar-se de ter ouvido os lavradores na Calheta dizerem-lhe que queriam votar em Arriaga e em Santana, mas que o não faziam porque os párocos, na missa, diziam que votar neles era acabar com a religião, com os casamentos e baptizados, era tornar a Madeira herege. (…) que o administrador do concelho e os regedores da Calheta mandaram os cabos de porta em porta, várias vezes, para instruir falaciosamente os eleitores, dizendo-lhes que (…) só teriam de votar naquelas (listas) que o administrador lhes entregaria dentro da igreja, à boca da urna. Também se registaram ameaças de negar futuramente a água do Rabaçal aos arrendatários que não votassem nos candidatos governamentais. (…) Quem escolhia a lista de acordo com as instruções oficiais, recebia do administrador do concelho uma senha por ele rubricada, habilitando à entrada em casa dos irmãos (…) para receber um pão e beber vinho.» Estará o leitor confuso? É possível, mas acredite que não está sozinho. À medida que ia avançando no livro de Luís Calisto «Vilões, Barões e Tubarões», demasiadas vezes me ficava a dúvida se se tratava de uma obra ficcionada sobre o séc. XIX, tais eram as semelhanças com factos recentes, dos nossos dias. «A contagem dos votos, no dia seguinte, depois de o padre ter ficado com a urna e com os votos toda a noite para com ela fazer o que quisesse (…) contribuiu para uma conclusão (…) "A vitória governamental foi ilegal e nojenta."» Lembra-se, leitor, daquela eleição para a Câmara do Funchal, em que Emanuel Jardim Fernandes perdeu por pouco? Por uma estranha coincidência, também nesse ano de 1989, a urna de uma mesa de voto passou a noite eleitoral em casa do respectivo presidente… Um parente do padre, à distância de 124 anos? A História repete-se, caramba! O espaço desta crónica torna impossível a merecida apreciação do livro do Calisto. Mas é inevitável concluir como as coisas mudaram tão pouco, na atitude genérica dos actores sociais. Políticos, mas não só. Também a Igreja de hoje, está aí, reflectida do ano de 1881, intrometendo-se em acções do foro puramente civil. A narrativa do segundo casamento civil na Madeira é uma ópera bufa, em vários actos: 1º - o casamento é marcado para as instalações do administrador do concelho, que deve presidir; 2º - o oficial do registo civil é chamado ao bispo; 3º o administrador do concelho demite-se, por influência do bispo; 4º - fica indigitado o administrador substituto, que dá parte de doente; 5º - segue-se, na hierarquia casamental, o presidente da Câmara que aceita mas vem a desistir, depois da ida do administrador (que se tinha demitido) à Câmara; 6º - o administrador volta a desaparecer; 7º - a cerimónia é realizada pelo vice-presidente da Câmara, Severiano Ferraz. Entretanto, a noiva - uma senhora viúva com filhos do primeiro casamento - recebia cartas anónimas com ameaças de excomunhão e de lhe serem tirados os filhos que tinha. Como tudo isto me faz lembrar, entre outras, a mais recente e discricionária atitude da Igreja sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo! Como nessa altura, cada um tem que ficar no seu lugar - à Igreja o que é da Igreja, à vida civil o que é da vida civil. Vale a pena conhecer os Vilões, Barões e Tubarões do século XIX, na Madeira. Ficamos em condições de perceber melhor os de hoje. Salvaguardadas, como é óbvio, as diferenças inevitáveis, que já ninguém está interessado em comprar títulos de nobreza; os palácios e mansões foram substituídos por casarões com piscina; as senhas de pão e vinho trocadas por nacos com espetada e frango grelhado (o vinho mantém-se). E para percorrer os caminhos a ilha já não se anda num único cavalo; agora é mais uma coudelaria inteira, enfiada num motor de automóvel-último-modelo. Quanto ao resto, manhas velhas, roupas novas. Mas há uma intrigante surpresa. Aquele povo, apesar de analfabeto na sua esmagadora maioria, isolado e ostracizado pelo governo central, ameaçado pelos poderes regionais civis e religiosos 'as freguesias em que o governo perder ficam sem lancha de horário' e 'as paróquias sem vigário', era suficientemente combativo para fazer vencer candidatos da oposição. O que aconteceu, entretanto? Ao Calisto, um Obrigada por dar a conhecer, um pouco mais, o que a história oficial dificilmente conta.
Violante Saramago Matos