Na sequência do último ato eleitoral, o partido mais votado, prepara-se para tomar posse, num contexto de crise económica e financeira que atinge severamente a vida de um número crescente de pessoas e instituições, com impactos individuais e sociais assoladores. Todos os indicadores apontam para a deterioração das condições de vida, o aumento do desemprego e da pobreza com as implicações que lhe estão associadas. O problema ultrapassa as fronteiras locais. O diagnóstico está feito e o momento impõe a quem nos vai governar a necessidade de consolidar um plano e uma agenda objetiva que atalhe a situação presente. Uma agenda que possibilite e aprofunde o diálogo social e acolha o contributo dos diferentes atores. No que toca á governação do sector da saúde, os próximos anos serão certamente influenciados pela situação financeira, económica e social, em que a região e o país se encontram. A actual estrutura dos serviços de saúde consagrada em legislação desde finais dos anos setenta, fixou o principio de que a proteção da saúde constituiu um direito dos indivíduos e da comunidade que se efetiva pela responsabilidade conjunta. Mais que um aspeto legal deve ser entendido como um instrumento que retifica o direito que todos os cidadãos têm de acesso a cuidados de saúde. Este instrumento, o serviço regional de saúde, nunca foi materializado em todas as suas potencialidades desde o início, porque esteve sempre assente numa frágil base financeira, circunscrito a períodos de legislatura que em nada favorecem a inovação e consolidação de modelos de gestão e organização dos serviços. Desenvolveu-se perante uma falta de transparência entre sector público e privado, teve sempre uma sistemática falta de profissionais e desincentivou a área dos cuidados de saúde primários. Apesar de todas estas dificuldades o serviço público de saúde, possibilitou uma notável cobertura da população em cuidados de saúde, que significou uma considerável melhoria do nível de saúde das populações, constatada pela generalidade dos indicadores de saúde. Questionado no seu actual modelo, o serviço regional de saúde, é uma importante conquista civilizacional, que deve continuar a melhorar as condições de saúde das pessoas. Num contexto em que as instituições hospitalares serão cada vez mais, unidades altamente diferenciadas e de passagem, exigisse que os centros de saúde, os cuidados paliativos e a rede de cuidados continuados se complementem e interajam, em função dos verdadeiros problemas dos cidadãos e das populações, com sistemas de informação e comunicação claros, seguros e fiáveis, e não se confine a interesses individuais ou de grupo. Não é aceitável continuar a assistir, á crónica burocratização de procedimentos, a intervenções comunitárias onde se sobrepõem serviços e recursos e a listas de espera cuja solução passou por apagar nomes inscritos nas mesmas. Não é admissível a existência de um directório único nos serviços e a redução das visitas domiciliárias por falta de transporte. Perante uma progressiva desmotivação e degradação das condições de trabalho dos profissionais, de carências a vários níveis, desde medicamentos a materiais de uso corrente, é discutível o ímpeto construtor e a prioridade em apresentar obras de duvidosa fiabilidade e necesidade.
Juan Carvalho, Enfermeiro