A austeridade, por si só, não diz nada ao comum dos mortais com pouca apetência para a frieza dos números. Ela só se sente quando se instala e entranha na vida das pessoas normais. A necessidade de reduzir aqui e além para cumprir metas e compromissos, que parece da maior razoabilidade à luz da contabilidade, pode passar rapidamente a absurdo e à surrealidade quando aplicada no dia-a-dia.

São os milhares de enfermeiros que saem de um Serviço Nacional de Saúde, onde já parecem escassear, os jovens forçados (e aconselhados pelo Governo?) a procurar alternativas fora do país, muitos doentes com sentença de morte ou de vida muito complicada com as novas regras na saúde, que vão tirar muitas falsas urgências dos hospitais, mas também vão deixar à mercê da sorte (e do dinheiro) muitos que precisam de cuidados, que não se compadecem com a simplicidade das contas.

São os nãos (difíceis) que os pais vão ter de dizer mais amiúde aos filhos. O desemprego em que vão mergulhar várias famílias, as dificuldades de muitos funcionários públicos de magros ordenados e com responsabilidades à tangente.

Os Orçamentos de Estado não meros números, são o futuro de todos. Os planos de assistência financeira não são compromissos de Governos, mas de gente. E por isso os silêncios causam-me estranheza. Aqui e além, os políticos – mesmo os que antes até a bola comentavam- adoptaram um registo de passar entre as gotas da chuva, calados. De fazer declarações sem dar resposta às perguntas dos jornalistas. Há, de facto, coisas difíceis de explicar. É melhor atirar com os números sem descodificação. Há o silêncio dos inocentes e o silêncio dos outros...