Nesta sequência de três artigos procurei relevar a importância da visão estratégica para podermos sair da crise. Não me canso de dizer que sem uma visão estratégica estamos condenados a mais do mesmo. Temos que aproveitar esta oportunidade para exigir que o nosso país tenha uma estratégia de longo prazo que nos garanta um futuro sustentado. Pittsburgh é uma cidade interior no estado da Pensilvânia a cerca de 1h de avião de Nova Iorque ou Boston. Durante muitos anos a cidade viveu da industria do aço que representava 60% do emprego. A poluição era de tal forma intensa que proliferou a anedota que quem tivesse um emprego de "colarinho branco" tinha que levar duas camisas para o trabalho já que a primeira ficava completamente suja. Com o colapso da industria do aço nos anos 70 a cidade e a região foram confrontadas com um gravíssimo problema de desemprego e decadência económica. A falência sistemática das industrias do aço associadas à insustentabilidade ambiental deixaram no desemprego dezenas de milhares de trabalhadores pouco qualificados. Perante o colapso económico os líderes da cidade viraram-se para o pouco que tinham: as empresas financeiras, as Universidades e os serviços de saúde. Atualmente a cidade tem pouco mais de 300 mil habitantes (metade do que tinha em meados do Sec. XX) e cerca de 40% do emprego está associado à saúde, educação e serviços. Passados pouco mais de 30 anos do colapso do aço, só 1% do emprego está relacionado com esta indústria. A nova economia de Pittsburgh foi criada em torno das duas Universidades a quem se deve direta e indiretamente a maior parte do emprego e atividade económica da região. São duas Universidades de topo que afastadas dos grandes centros desenvolveram nichos importantes de investigação com reputação mundial. A Universidade de Pittsburgh é reconhecida mundialmente pela sua escola de medicina. Tem associada um Centro Médico que é uma empresa global de serviços de saúde que factura mais de 9 biliões de dólares e emprega mais de 50 mil pessoas. A Universidade de Carnegie Mellon é uma das top 20 do Mundo em particular nas engenharias e tecnologias. Especializou-se em áreas associadas à engenharia informática como a robótica e é responsável por muitas startups tecnológicas e muitos investimentos de empresas como a Microsoft, Google, Disney, etc. Pittsburgh deixou de ser a cidade do aço e passou a ser uma das cidades modelo para a nova economia do Sec. XXI. Por essa razão Obama escolheu pessoalmente Pittsburgh para a cimeira dos G-20 em 2009 num voto de confiança de um exemplo de transformação da velha para a nova economia.Não foi um caminho fácil e muitos erros foram com certeza cometidos ao longo do processo de transformação da economia de Pittsburgh. Mas quando aterro no aeroporto que foi construído para ser um dos principais hubs dos EUA e depois colapsou com o 11 de Set. ou quando passeio no centro da cidade cheia de arranha-céus vazios de grandes empresas que nunca lá se estabeleceram, pergunto-me o que seria daquela cidade se não fossem as suas Universidades. No início da recessão Pittsburgh foi das poucas cidades dos EUA que aumentou o emprego e o valor do seu mercado imobiliário. A velha economia dependia do carvão e do aço, a nova depende do talento. Mas uma mudança para uma economia que depende do talento é acima de tudo uma mudança de mentalidades. O talento é um ativo muito diferente dos recursos naturais ou financeiros. O talento não desponta numa mina, tem que ser recrutado. O talento não está fixo a uma região, tem que ser retido porque se move facilmente. O talento tem que ser desenvolvido porque o conhecimento está em permanente evolução. Portugal precisa de reinventar a sua industria para poder exportar mais e resolver os problemas estruturais da sua economia. Nos últimos anos fizemos um investimento notável em ciência reconhecido e apoiado por todos e que é o único factor competitivo que nos resta. Numa altura em que temos que fazer escolhas não podemos comprometer este capital de talento que tanto custou a atrair e desenvolver. É certo que o investimento em ciência não tem impacto imediato na economia. A ciência é essencialmente uma atividade "gastadora" (eu diria um investimento) sem retorno direto imediato. Mas a ciência atrai talento, gera conhecimento e permite formar a massa crítica que depois os instrumentos económicos podem e devem explorar para criar impacto. Durante muito tempo em Portugal fizeram-se parques tecnológicos, incubadoras de empresas e centros de negócios com muito pouco impacto porque não existia o talento e a massa crítica que estes instrumentos necessitam para produzir resultados. Usando o exemplo do futebol estes instrumentos são os estádios e os palcos em que ambicionamos ver jogar as nossas equipas. Mas para termos esses resultados precisamos primeiro das academias de formação e da massa crítica que são as Universidades e os centros de investigação. Portugal só tem uma solução que é continuar a aposta na ciência e no conhecimento. É um caminho longo mas que vai trazer resultados se não nos desviarmos da estratégia seguida já há vários anos. Os milagres económicos acontecem mas dão muito trabalho. Em Pittsburgh os principais decisores reuniram-se e acordaram a estratégia, do estado, às Universidades e municípios. Compreenderam que os tempos não permitiam mais ilusões e transformaram o futuro de uma região condenada ao desastre. Em Pittsburgh ou na Madeirao milagre pode acontecer mas precisa de uma aposta clara, concertada e continuada. Nuno Nunes, Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal

Nuno Nunes