Nestes últimos dias alguma imprensa nacional tem se divertido com umas curiosas declarações do secretário de Estado da Juventude e Desporto, em viagem por terras de Vera Cruz. Parece ter ofendido o povo deste País, só porque pensou pela sua própria cabeça e disse o que lhe ia na alma, com os pés bem assentes no chão. Pois é. A verdade não caiu bem, porque o jovem membro do Governo, pelo menos em idade deve sê-lo, pois tomou posse já neste ano, reflectiu em voz alta e sugeriu que o destino que agora se apresenta como mais indicado aos jovens portugueses, neste tempo de crise, é a emigração. Miguel Mestre surpreendeu tudo e todos, ao dedicar ao disparate, um momento de reflexão, que resultou numa frase que é exemplo do politicamente incorrecto, nomeadamente pela repercussão que teve, e pela crucificação a que se expõe, já que estão a cair-lhe em cima, com uma carga negativa que, certamente, não pressentiu, quando apenas pretendeu indicar a melhor das soluções práticas do momento. "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras", disse o secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Um jornalista português de um meio digital da comunidade portuguesa no Brasil, escrevia na terça-feira, textualmente: “Não me recordo que algum governante tenha recomendado aos seus concidadãos que abandonem o próprio país. O secretário de Estado pode concluir as suas funções sem nada mais fazer de relevante, mas depois das declarações em São Paulo também já não precisa de qualquer esforço adicional. Tem lugar garantido na galeria da hipocrisia e do disparate político”. O mesmo tipo de crítica, em termos semelhantes, foi também produzido em Portugal, por forças políticas e atentos cronistas que reportaram o disparate e que não perderam tempo juntando-se aos observadores políticos de carreira ou de circunstância. Não conheço Miguel Mestre, nem daria tal conselho aos jovens portugueses numa cerimónia pública e se estivesse investido de responsabilidades governamentais nacionais, mesmo em viagem no Brasil. Contudo, acho que devemos ser realistas. O secretário de Estado julgou estar numa roda de amigos e mais não fez do que falar abertamente de uma questão nacional, do País distante, no mapa, mas mais perto, olhando aos convivas. Quantos de nós pensam como ele? Pois é… a questão está precisamente aí! Será que este País tem possibilidade de, neste momento, garantir emprego e colocação para os cerca de 27% de cerca de 600 mil desempregados que estão registados nos serviços oficiais? Então, perante essa falta de saída, o melhor é emigrar. Não será uma emigração, como aquela que aconteceu há cinco ou quatro décadas, em que as famílias portuguesas se deslocalizaram para outros países com mais futuro, fugidas à pobreza e à guerra colonial. Será uma fuga temporária para países que possam oferecer colocação e trabalho para o arranque de carreiras, que podem ser temporárias, na expectativa de que as condições irão melhorar em Portugal e o regresso se verificará em breve. Ontem estive no Aeroporto do Funchal e assisti ao despacho de um avião da EasyJet para Londres. Trata-se de uma companhia aérea britânica que trabalha no segmento de baixo custo e que é subsidiada pelas autoridades governamentais portuguesas para trazer turistas para a Região. Não sei quantos, mas a bordo seguiram muitas dezenas de madeirenses, sobretudo jovens, naturais do arquipélago, uns de regresso ao trabalho, outros que seguiram na expectativa de encontrar emprego. O desespero é tão grande, que aceitam trabalhar em actividades que, muitas vezes, não correspondem às suas habilitações, mas que significam ocupação e algumas libras para sustentarem-se e à família que aqui vive. O Diário de Notícias na edição impressa de hoje aborda este tema e mostra que a emigração de jovens para o Reino Unido cresce e é um escape viável, já que muitos trabalhos são recusados pelos próprios britânicos, onde há também desemprego, mas pouca sujeição e humildade para aceitar as vagas que a economia oferece e aos quais se sujeitam emigrantes que chegam dos países mais pobres da União Europeia. Humilhante, dirão alguns, mas é trabalho e salário para quem não o tem em casa. Então que se deve dizer aos jovens nesta hora? Que desafios se lhes colocam? Miguel Mestre já o disse. Mas disse-o de forma pouco política, pois quando alguém viaja por imposição é um destino que se força por falta de condições de acolhimento no País onde nascemos. Mas que havemos de fazer, com estas políticas restritivas e as soluções cada vez menos humanistas que desenham os economistas?! Os críticos de circunstância, alguns deles políticos agastados por não terem ganho poleiro, deviam atentar em tudo o que conduziu a esta situação e gastar energias na criação de planos que fomentem a riqueza nacional e o trabalho para os jovens deste País. Já que os que devem dar a resposta e criar essas condições, se enrascam na sincera resposta de que o melhor é emigrar…