
Eu não me lembro de um 1.º de Novembro com tantos motivos para rogar a Todos-os-Santos. Que o digam os accionistas dos três maiores bancos portugueses cotados em bolsa que, em apenas 24 horas, assistiram a uma vertiginosa queda acima dos 10%. Que o digam os gregos. Nem o milagre do perdão de 50% da dívida soberana do seu pobre estado afugenta os fantasmas dos mercados. Com taxas de juro (a 2 anos) acima dos 100% não há dinheiro emprestado que compre os actos de contrição de um povo que se penitencia há demasiado tempo na indefinição do amanhã. Não tarda que o milagre de tal ‘bondade’ culminará na multiplicação dos lenços brancos acenados na Praça Syntagma e nas avenidas de Salónica, numa rendição nacional à ‘troika’ e àquela tecnocrática ordem financeira que teima em assumir as rédeas de uma Europa que, no plano da coesão, continua na Idade Média. Assim, não tardará que os gregos pedirão, em referendo, a sua extrema unção do eurogrupo.
Por outro lado, já não chovem raios e coriscos sobre a legitimidade, a moralidade e a legalidade das decisões governamentais. A justiça parece manietada, o controlo das forças militares torna-se uma obsessão do poder à medida que emerge uma outra tentação grega: a criação de um governo de salvação nacional. Mas para salvar quem, como e com o dinheiro de quem? Depois de mergulhada uma nação inteira na falsa ilusão do poder do euro e de tanto desprezo pelo que a história política grega tinha de melhor isto agora é um ‘salve-se quem puder’. Até os imperadores nos sepulcros do Panteão viraram as costas à fé nos homens. Até os deuses fugiram das acrópoles e da mitologia grega já só resta o mais primitivo e ancestral dos deuses: o Caos. É precisamente o pai da Noite e da Escuridão que vai assombrando a luz que ainda irradia de um sonho europeu que desliza, como uma urna, para as profundezas de uma utopia cada vez mais real. Neste retrocesso histórico para a idade das trevas, onde reina o iluminismo?
Mas a história tem curiosas coincidências. Fez ontem, dia de Todos-os-Santos, precisamente 18 anos que entrou em vigor o Tratado de Maastricht da União Europeia, ratificado em 1991. Lembro-me da alegoria à efeméride, baptizada de “o dia mais triste”, como que vaticinando um mau presságio para o que aí vinha. Sete séculos antes, em 1431, morria D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do Reino que assegurou a independência de Portugal em Aljubarrota, travando uma batalha sangrenta em clara inferioridade numérica quando o país estava banhado numa crise arrebatadora: sem rei, sem ordem, sem dinheiro. O que diria o nobre guerreiro do século XIV aos nobres guerreiros do século XXI que entregaram a sua soberania política-financeira a troco de uma cova - grande o suficiente - para sepultar uma dívida pública acabada de exumar?
A resposta pode ser tirada de uma das frases de John F. Kennedy, depois de ter vencido as eleições dos EUA, em 1960, precisamente (nova coincidência) na noite de halloween. "Não reze para ter uma vida fácil, meu amigo, reze para ser um homem forte". Há frases que não se esgotam no tempo. Mas nem por isso tem sido esta a mais lembrada, por estes dias, em Wall Street. Na capital mundial do capital, o protesto global enfatiza outro célebre ensinamento do democrata de Brookline, eleito 35.º presidente da nação mais poderosa dos EUA e que partilhava com todos o sonho de conquistar a Lua. "Pode-se enganar a todos por pouco tempo, pode-se enganar alguns o tempo todo, mas não se pode enganar todos o tempo todo".