A palavra tempo no vocabulário português pode ter pelo menos dois significados. Dependendo do contexto em que é aplicada, pode se referir-se à meteorologia, mas também pode significar horário.

Os muitos madeirenses que, como eu, tiveram o privilégio de ter como professor e mestre da matemática e do xadrez, o ilustre Reverendo padre João Vieira, na Escola Salesiana de Artes e Ofícios, com certeza que se lembram de o ouvir declamar o “poema do tempo”, em que ele utiliza a palavra tempo de uma forma muito interessante.

Mas estamos no Outono e o tempo (meteorológico) assim com o tempo (horário) de luz é muitas vezes incerto.

Depois de uns dias de sol, vêm os dias de chuva e diz-se que o tempo vai a favor daqueles que precisam da terra húmida para plantar as semilhas do cedo e dos que já fizeram algumas plantações e precisam de água para que elas desenvolvam.

Voltam os dias de sol e diz-se que o tempo vai a favor de quem já fez o cuscuz e precisa de o secar para guardar ou ainda daqueles que cortaram a chama (urze das vassouras) para chamuscar o porco no próximo mês e precisam que ela seque.

Mas noutros dias o vento também sopra, por vezes até com alguma intensidade, e continuamos a dizer que o tempo vai a favor. Neste caso, dos que têm castanheiros e nogueiras, porque lhes poupa o trabalho de varejarem as ditas árvores para colher os frutos ou dos que têm vinha com muita folha e querem que ela caía para semear alguma coisa debaixo das latadas.

No entanto, ultimamente ouvimos muito falar noutro tempo, o tempo de crise. Referindo-se à situação económico-financeira em que alguns colocaram a região, o país, a Europa e, no fundo, quase todo mundo. Se o tempo de crise vai a favor deles, não sei, mas sei que este tempo, que dizem de crise, tal como no tempo das vacas gordas, vai a favor de alguém.

O tempo seja ele qual for vai sempre a favor de alguém e quando já falta o tempo aqui fica o poema declamado pelo Reverendo padre Vieira, cujo autor é Laurindo Rebelo.

O tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo,

É forçoso do tempo já dar conta;

Mas, como dar sem tempo tanta conta,

Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo

Dado me foi bem tempo e não foi conta.

Não quis sobrando tempo fazer conta,

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta

Não gasteis esse tempo em passatempo:

Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo

Fizessem desse tempo alguma conta,

Não choravam como eu o não ter tempo.

Joel Freitas, Presidente da ACIN