Respondi-te, meu caro, que estivemos no centro, no Baltazar Dias. Mais centro que este também existe, imagina que até lá estivemos por uma semana, mas infelizmente não te pudemos avisar nem te dar boleia para esse centro, como o para onde foste ver o lindo espectáculo Azul Longe nas Colinas... e não imagines que até te dei boleia no regresso ao Funchal. Sabes, nós não somos de avisos, de pedir por favor para virem ao teatro, de pagar os bilhetes para tu vires ao teatro. Não somos a terra, não giramos à tua volta, nem à nossa, nem somos o sol. Quem nos dera. É preciso uma Revolução Copernicana no teatro que postule a recusa de espectadores iguais a ti como pólo central do nosso trabalho. 'Somos vadios do nosso corpo' (Pessoa) se não procuramos a divulgação que está por aí, espalhada, mas que só não rebenta na tua cara porque não somos bélicos. O nosso centro acontece a cada lugar que vamos. É verdade que não é um foguete a entrar na tua porta e a explodir na tua sanita para ver se te lembras que estamos em cena. Não me lixes. Há cultura, não alados, e a tua carolice não te fica bem. Tenta a informação e amealhar o preço duma caipirosca para nos veres se para o nosso grau de aguardente estiveres virado. Foi dada luz verde para (a exploração) do ouro, é sempre uma alternativa ao esforço que te peço (eu dou-te uma luz amarela que clama só um pouco mais de atenção à tua órbita). Troco e destroco é uma operação do Banco de Portugal. No Centro Cívico do Caniçal, apareceu-nos uma espectadora com apenas um euro para ver o espectáculo. "É o que tenho", disse. Soubemos trocar aquele euro por cinco. A simplicidade e desejo desta mulher, lembro Rilke, 'até pode diluir um Anjo'. Ganhámos o dia. Trocar ou destroçar esforços está nas nossas mãos. O teatro é também sobre este poder da troca, do eu pelo tu, que nos quer ver o centro em toda a parte. Diluído com este 'dentinho'...

Élvio Camacho, Actor