Não conheço o poeta que, este ano, conquistou o Nobel da Literatura, mas é um poeta. E a verdade é que tenho da poesia um sentimento de pertença. Um lugar onde fincar os pés e descansar o coração.

Desde que me lembro, é da poesia que sou, como à casa que se regressa depois de todas as viagens. É desse lugar onde as palavras têm um sentido na medida exacta da nossa respiração. Movem-se por dentro da pele, como coisa própria.

Sim, acredito que a vida está nos livros. Toda a vida. Principalmente nos livros de poesia. A vida está em todos os poetas. Nos esquecidos e nos que nos fazem lembrar, nos célebres e nos desconhecidos, nos que publicam e nos que se deixam apagar no silêncio.

E, agora que recordo, a minha vida está repleta de poesia. Consigo recordar cada momento de um poema. A lágrima de preta, com "água e cloreto de sódio", nas letras gordas do livro da quarta classe, ali ao lado da minha caligrafia ainda a encontrar o caminho das letras. O "verso em branco e sem medida" no velho gira-discos do meu pai. A Marta menina a garantir, em cima do palco do Liceu, que "a realidade não precisa de mim", a Diana a levar-me pela mão num reencontro com Herberto Helder. Sim, esse poeta que nasceu aqui no lugar da ilha e para quem "um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser".

É ainda outro poeta nascido na ilha que embalo em todas as noites. José Telentino Mendonça a ensinar-me o lugar onde deixei o coração e a garantir-me que os amigos são "esses estranhos que nós amamos" e que "são sempre adolescentes, assustados e sós sem nenhum sentido prático".

Valter Hugo Mãe que me diz e que devolve a poesia às coisas reais. O que garante que "Herberto Helder tem duas pernas e dois braços, dois olhos, tem nariz e boca e come, vive numa casa, espreita pelas janelas, por vezes sai à rua, sozinho ou acompanhado, a falar, apanha chuva, liga a televisão, sabe onde fica a França, lembra-se quando era pequenino, inclusive teve mãe e pai".Porque, afinal, "é impressionante o quanto um poeta se pode assemelhar às pessoas!"

Do fundo desta humanidade aprendo com Ruy Belo as árvores que em vez de frutos dão pássaros, e com Adília Lopes que "nunca ninguém viu um vestido a chorar".

E nasço em todos eles, outra vez palavra, outra vez menina a ensaiar o caminho das letras. Porque ler poesia é aprender a andar uma e outra vez, sempre, até ao fim ou no avesso do princípio