Fechado que está o ciclo das propostas - todas com direito a grande relevo mediático no DIÁRIO, TSF e dnoticias.pt, apesar dos queixosos do costume acharem que foram discriminados - importa olhar para além do horizonte pouco ambicioso e que alguns resumem aos resultados eleitorais. Urge vencer a outros níveis, porventura, mais vitais, a inquietação que nos deixa em desassossego, o desespero resultante das facturas públicas por pagar e a revolta gerada pelo sacrifício forçosamente solidário. O futuro joga-se hoje, com escolhas que determinam opções governativas, modelos de desenvolvimento e atitudes públicas, num sufrágio que se quer exemplar. Tomara que seja muito participado e se defina como um sublime momento de respeito pelas preferências de cada um, sobretudo daqueles que votam acompanhados e de outros que, dada as dependências físicas e vivendo em lares, são forçados a votar contra a sua vontade. Tomara que seja honesto, reflexo do desejo de cada eleitor e das suas convicções. E ainda, para evitar tentações e anomalias que muitos classificam de batota, que seja vigiado, o que implica auto-regulação, presença efectiva da diversidade política nas mesas de voto, desde que autorizada, e disponibilidade, se for caso disso, para fazer denúncias por escrito, quanto mais não seja para limpar de vez dos cadernos as 'chapeladas', as suspeitas de haver mortos que ressuscitam por um dia e emigrantes que regressam sem serem vistos. As eleições são um importante momento do processo democrático. Mas não a única forma de exercer direitos. Por isso, é elementar ter presente desde já, antes de votar e de conhecer vencedores e convencidos, que às escolhas que vierem a ser feitas estão associadas exigências permanentes. E a primeira é que amanhã, eleitores e eleitos estão obrigados a começar um novo ciclo, mesmo que sejam os de sempre a governar. Uma nova era comprometida com o essencial, com o emprego, com os incentivos às empresas, com o apoio ao tecido produtivo regional, com a qualidade de vida, com a inovação, com a internacionalização, com os direitos elementares das pessoas, com a boa gestão, com o rigor nas contas e com a transparência. Um novo tempo, de preferência marcado pelo saber, pela partilha de ideias e hábitos de debate e, sobretudo por prioridades governativas que pensem nos madeirenses sem excepções e não nos interesses de meia-dúzia de privilegiados. A austeridade anunciada não deve atrofiar mentes e processos, antes motivar gente competente de vários quadrantes e gerações para que se empenhe responsavelmente de modo a salvar a economia da Região. Não deve gerar egoísmos e falsas expectativas, nem contenciosos estéreis e chantagens descabidas com quem quer que seja. É tempo de agir, de apresentar soluções sérias e de estabelecer um compromisso social que não só salvaguarde rendimentos, como não dê cabo das únicas riquezas colectivas que nos restam. A subida impensada dos impostos na ânsia de obter receitas imediatas revelar-se-á trágica. Mexer nas taxas de IVA, elevando-as a máximos nunca vistos, atenta contra a economia, numa Região que depende do Turismo e que ainda tem um Centro Internacional de Negócios. Mesmo sabendo de antemão que a qualidade da democracia não é prioritária para todos os madeirenses, o voto de hoje obriga a mudar de vida, a deixar de lado a subsidiodependência, as borlas, o facilitismo, a culpa alheia, a ofensa gratuita e a agressividade. A dignidade de cada um não está em saldo, nem vai a leilão. Quem quer que venha a ser chamado a formar governo não pode continuar a ceder ao populismo e à demagogia, à rede clientelar e às apostas desnecessárias. Quem quer que venha a ser eleito para monitorizar a democracia na Madeira não pode contentar-se com o conforto do lugar garantido no Parlamento e com o expediente mediático que desacredita a política. Quem quiser ficar na história, deve transformar o voto que hoje lhe vier a ser dado num pacto decisivo com a esperança e num serviço contínuo ao cidadão. O DIÁRIO, comprometido desde as origens com os anseios dos madeirenses, estará sempre disponível para fazer parte da solução e para construir equilíbrios numa sociedade cada vez mais assimétrica e intolerante. Hoje, quando for exercer um dos múltiplos deveres da cidadania activa, comprovará que a reles tentativa de um ou outro político sem escrúpulos em encostar este nosso jornal à partidocracia e colá-lo a determinados emblemas não passou de mais uma fraude mal sucedida. Garantidamente não nos encontrará no boletim de voto. Mas não é por isso que nos demitiremos de pensar e de edificar o futuro. A democracia não se esgota nas eleições. E nas de hoje, todos sabemos que os valores nos quais acreditamos se jogam mais nas consequências do que na contagem das escolhas, por muito entusiasmante que esta seja.