Somos míopes. Gostamos de lego e de meccano. Perdemos o coração em estações de comboio. Espantamo-nos por dentro de cidades e de filmes que são cidades (A Morte em Veneza, que ainda não visitei ao teu lado). Olhamos o entardecer com pressa de que não acabe: "amo o ocaso", lembraste (e não sabias). Não tocamos piano; tocamos dedos em mesas de madeira, pela melodia da memória. Trauteamos desafinados canções antigas. Ficamos catraios ao ouvir as bandas militares (a tocar ora uma, depois outra) nos coretos da vila. Habitamos casas onde não moramos. Temos veias de pulsar forte nas mãos, na cabeça. Não conhecemos gramática nem grego (mas sabemos de cor "arma viraunquae cano" - Camões, claro). Gostamos de mapas e de pioneses em mapas; gostamos de caminhos. Fumamos num só travo. Amamos árvores e os secretos pássaros que tu conheces e eu aprendo. Temos o passo desconcertado; sabemo-nos lentos por dentro do coração. Não temos fé. Acreditamos. Sentamo-nos no degrau que começa as escadas do dia que acaba. Gostamos de companhia. Dormimos sestas (tu meditas, eu sei). Dançamos mal. Gostamos de canetas de tinta permanente, do cheiro da tinta no papel. De relógios de ponteiro e grandes. Perdemo-nos entre tanto tempo: sabemos as horas da luz pela tarde, acertamos o calendário, distraímo-nos dos dias, tarde ou cedo demais. Temos bom e mau humor. Guardamos caixas que guardam fotografias. Fazemos montinhos de papéis, notas soltas de dias encontrados, entretanto contados ao acaso de anos por vir. Não temos a paciência dos coleccionadores. Guardamos moedas sem valor pelo desenho nelas gravado. Gostamos de dedicatórias em fotografias com data. Contamos muitas vezes a mesma história. E rimo-nos. Gostamos de madeira. Do tempo. Temos paciência. Perdemo-nos por bolo de noz (da Antiga Casa Faz Frio, ora). Gostamos de compreender o que, como, quando funciona. Peça por peça. Somos impacientes. Amamos amigos. E gostamos. Gostamos de cartas (com selo). Não sabemos o amor. Não gostamos de jogos; nem de ganhar. Amamos. Gostamos de brinquedos de corda. Da cor do carro que agora acolhes na garagem. Gostamos de remos em água funda. Do rio. O Minho, o Mouro, regatos e riachos vários no olhar e nos pés. Gostamos da foz. Da luz larga que (ampla) desagua oceano. Gostamos de balanças, do sentido justo do peso, da leveza, da fidelidade. De barcos que partem, que chegam, que são. Preferes "transportes colectivos" e eu concordo (hoje). Não gostamos de água fria. Gostamos de medir os graus da tarde que arde. Amamos música - toda - e jazz (tom a tom, como uma dança de mãos). Somos anacrónicos. Olhamos a bicicleta e a buzina toca - agora (pelas tuas mãos que sabem); as rodas, os raios alinhados como fio da memória. Seguimos ciclos: tocamos o que cresce; trememos o que colhemos (que nos colhe); a vinha, a uva, a vida. Conhecemos a morte. Somos livres. Temos alegria nos braços. Somos sombrios. Gostamos da erva em passos nocturnos. Abraçamo-nos. Não sabemos (hoje) o lugar à mesa da cozinha. Seguramos o banco com um dedo, como é certo. Não sei de ti. Sei que sou de ti. Sinto, sempre, o que aprendo no livro que me é pelas tuas mãos - A vida apaixonante de Adriano, de Marguerite Yourcenar, como acertadamente lhe chamou Maria Lamas no volume encadernado a tecido castanho-antigo (ainda não tinha eu nascido): contigo em mim mora "o sentimento de uma escolha tão deliberada e tão involuntária como o amor".
Diana Pimentel