Antigamente, por altura dos tempos de vida dos meus avós, havia famílias que se alimentavam a partir de uma panela que era colocada sobre a mesa e todos se serviam da mesma sem haver qualquer distribuição prévia. Durante anos assim foi e a partir de certo período, como o alimento já não sustentava todo o agregado familiar, impôs-se a necessidade, chegada a altura da emancipação, de partir para outros destinos onde pudessem encontrar outros meios de vida mais rentáveis e de acordo com o desejo de cada um. A Madeira após alcançar a sua autonomia, viveu um período de grande expansão imposto pela necessidade de dar melhores condições ao seu povo, evitando que tivessem se resignar ao seu destino quase fatalista de ser ilhéu e desprezado por um «tutor» todo poderoso que mais se preocupou em salvar territórios, que pela sua dimensão, importância geoestratégica, génese e cultura, sabíamos que era de todo impossível segurar, do que proporcionar legitimas condições de vida aos povos insulares. Muitos alimentaram-se da «panela» que foi disponibilizada pelos sucessivos governos regionais, criaram riqueza, estabeleceram-se em vários ramos de negócio, proporcionaram melhores condições aos seus descendentes, atingiram objectivos pessoais, profissionais, sociais e políticos talvez nunca antes imagináveis e muitos deles vivem à custa do trabalho desenvolvido por esses mesmos governos. Chega-se ao momento em que esse alimento escasseia, fruto do colapso financeiro e político da Europa e de um governo socialista que levou o país ao limiar da bancarrota e que estrangulou as finanças da Região. Durante um mês falou-se tanto da Madeira, ou não tivesse em causa um acto eleitoral, que serviu para tapar os buracos, os buracões e as crateras existentes em Portugal e que deram mote a uma campanha eleitoral que nada acrescentou pois soluções nenhuma candidatura as tem porque não há dinheiro para ninguém. Como dizia recentemente, um juiz jubilado do Tribunal de Contas, o problema da Madeira não é único. Esta questão já vem de há uns 15 ou 20 anos atrás com sucessivos governos da República a cometerem desvios permanentes e deficits elevadíssimos sem que ninguém fosse capaz de travar, mesmo com relatórios e pareceres do Tribunal de Contas. Sabemos qual é a dívida da Madeira. E a dos Açores e do país no seu conjunto envolvendo câmaras municipais e empresas públicas? A isto chama-se hipocrisia. Vive-se hoje num mundo onde não há valores e ética. É o vale tudo.
José Manuel Oliveira