Júlio Resende marcou a pintura portuguesa desde os anos 40 até aos nossos dias. O mestre tinha um poder de síntese ímpar que conferia ás suas telas um carácter e estilo muito próprio e original. Apesar da sua maturidade, Resende optava por cores cada vez mais joviais e alegres e os seus temas abarcaram o neo-realismo - numa primeira fase, muito breve -, sendo que o que o apaixonava era a mensagem social e em especial os assuntos populares que vai buscar ao seu dia a dia e em particular às suas muitas viagens, tendo sido tocado em especial pelo Brasil e por Goa. Resende tentava abordar o conhecimento de si mesmo e do mundo que o rodeava através da arte e defendia este princípio, este lugar de primazia das artes no entendimento do conhecimento do mundo. Esta defesa de um activismo-estético para o lugar do artista. Júlio Resende, através das suas telas, redescobriu o tempo das descobertas, do iberismo e do destino marítimo dos portugueses, conferiu-lhes ora movimento acelerado, cores garridas e uma alegria quase pueril; ora retratos das gentes que povoavam o seu imaginário, as suas memórias e tudo o que conseguia assimilar por esse mundo fora. Pescadores da Póvoa do Varzim, Mulheres e crianças de Goa, algumas cenas de atelier exerceram um fascínio especial no artista. A nós, portugueses ilhéus, ou do continente europeu, deixa-nos uma obra pictórica vastíssima e apaixonante que vale bem a pena ver um dia, se tiver essa oportunidade.
Raquel Fraga, Historiadora de Arte