No último artigo falei da importância de uma visão estratégica como principal factor de mobilização para podermos sair da crise. Temos que aproveitar esta oportunidade para definirmos uma estratégia arrojada e diferenciada que nos permita preparar a saída da grave crise financeira internacional em que nos encontramos. Muitas pessoas confundem estratégia com modelo de desenvolvimento. São coisas muito distintas e provavelmente a confusão que persiste entre ambas é também responsável pelo estado de coisas a que chegamos. O modelo de desenvolvimento que seguimos em Portugal e naturalmente na Madeira é Keynesiano. Este modelo é sustentado na ideia da indução do investimento através da redução das taxas de juro e do investimento público em infraestruturas. O princípio é simples, o investimento público é o motor que estimula um efeito multiplicador na economia resultando em mais produção, investimento e consumo privados. O modelo Keynesiano foi utilizado com sucesso para fazer face à grande depressão e voltou a estar novamente em moda nos EUA com os pacotes de investimento de Obama. Contudo, a crise atual não está relacionada com este modelo de desenvolvimento. Keynes nunca prescreveu onde deveria ser aplicado o investimento público e muito menos defendeu que os investimentos do estado fossem insustentáveis ou feitos à custa de dívidas. O motor das nossas economias gripou mas isso é responsabilidade dos condutores que não souberam tirar o pé do acelerador e não de quem inventou o princípio do motor. A ditadura deixou o nosso país numa calamidade. Face aos atrasos estruturais e aos incentivos disponíveis seria impensável não investir em infraestruturas. Podem-se discutir os critérios e a eficácia dos primeiros 30 anos pós democracia, mas o progresso foi evidente em todo o país. Este esforço estimulou essencialmente a industria da construção e o emprego de fraca qualificação. Não era preciso nenhum visionário para perceber o que era necessário fazer: estradas, autoestradas, escolas, centros de saúde, portos, aeroportos, etc. O valor de uma visão estratégica clara nos primeiros 25 anos de democracia não era evidente, bastava ir a qualquer país desenvolvido e copiar o que lá se via. O problema surge nos 10 anos seguintes quando nos começamos a aproximar da média europeia e nos foram exigidos resultados e competitividade. Nos últimos anos o mundo mudou e muito. As autoestradas mais importantes deixaram de ser as de betão, as fronteiras desapareceram e emergiram as economias do oriente. Muitos países compreenderam isto e ajustaram a sua estratégia, qualificaram os seus recursos humanos e investiram em sectores que transformaram a sua economia. Nós continuamos pasmados perante a evidência que o progresso material nas infraestruturas não estava a produzir resultados na economia. Em vez de pararmos para pensar, aceleramos a fundo até o motor gripar. Em Portugal sem estratégia de investimento continuamos a trajetória dos primeiros 25 anos com duas agravantes. Em primeiro lugar investimos mais do que a nossa economia permitia e muitas vezes em áreas que não deveriam ser responsabilidade do estado. Em segundo lugar investimos sem qualquer critério, criamos infraestruturas supérfluas por todo o território ao sabor de caprichos e pressões. A diferença não está no modelo, a diferença está no critério e nas prioridades. Portugal não dá importância a isto mas no Reino Unido são publicados e discutidos publicamente estudos sobre os efeitos multiplicadores do investimento público. Por exemplo o efeito multiplicador imediato do investimento na construção é de cerca de 2,1€ por cada euro investido, enquanto que na educação e investigação é de 1,4€. Só que estes indicadores são diretos e não têm em conta o efeito induzido na economia a prazo, que no caso da construção passa para 2,5€, na investigação e educação para 2,8€. A prazo o impacto não só se inverte como acima de tudo tem uma natureza distinta. Os efeitos induzidos a prazo em construção originam de impostos e especulação imobiliária, na educação e na investigação são transformativos. É verdade que quando um governo investe em construção tem um impacto imediato muito maior do que quando lança um programa de investigação. Mas o resultado a prazo é completamente diferente, num caso permite transformar a economia e no outro apenas adia o inevitável. O problema da visão estratégica é que ela não desponta da vontade colectiva e por isso é complicada de definir de forma sustentada. Para as empresas de construção civil construir uma autoestrada ou um centro de investigação é igual, para o nosso futuro é que não. Para a economia nacional investir num TGV de tecnologia Alemã ou em energias renováveis de tecnologia Portuguesa é igual, para o nosso futuro é que não. Ninguém define uma estratégia de longo prazo por consenso popular ou mediante um calendário eleitoral. O pensamento estratégico é uma responsabilidade das elites que em Portugal falham sistematicamente. Ficamos assim entregues à lógica igualitária em que todas as pessoas querem ter uma estrada, todas as freguesias querem ter um lar de idosos, todos os concelhos um centro de saúde, todas as cidades um estádio de futebol e todas as regiões uma autoestrada. A legitimidade democrática é igual, o impacto no nosso futuro colectivo é que não. Basta ver como todas as nossas vilas e pequenas cidades ficaram iguais para perceber como isso comprometeu o potencial cultural e económico do nosso território. Quando a Régua fica parecida com Loures e Santana com o Caniço perdemos todos a começar pelos que vivem na Régua e em Santana. Quando a Universidade dos Açores é igual à do Algarve e ambas ambicionam ser a Universidade de Lisboa é impossível termos nichos de excelência. Da próxima vez que um político vos falar de modelo de desenvolvimento e prometer fazer mundos e fundos desconfiem e preguem-lhe uma partida. Façam uma pergunta muito simples: "Sr. Político como é que ele vê o nosso pais/região/município [riscar o que não interessa] daqui a 20 anos?". Se os olhos começarem a brilhar e ele falar sem parar do futuro têm homem. Se ele ficar engasgado e desviar a conversa.... fujam!

Nuno Nunes, Professor Universitário, Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal