Os grilos parecem ter tomado conta da cidade esta noite. Anunciam o fim da época das chuvas. As palavras custam a sair. Noite quente, noite húmida, como costumam ser as noites na Guiné-Bissau. Daqui, não se avista a ilha. Daqui, não se avista o que para aí vai a menos que se tenha televisor. O televisor da sala de pequenos-almoços do Hotel Coimbra está sempre na RTP-Internacional. No canal, quantos noticiários sobre a crise da dívida - Madeira, Portugal, União Europeia? Quando por lá passo, em busca da fruta, do iogurte e do café, emite Praça da Alegria. Não me ponho a olhar. Sabe-me a despropósito. Esta manhã, havia Tony Carreira, banda sonora para cortar os pulsos. Corro para a rua. Entre o gravador, o bloco, a caneta, uma espécie de kit de sobrevivência: uma garrafa de água, um repelente, um anti-alérgico. Os mosquitos andam doidos nesta terra. A Guiné-Bissau, aliás, África, para mim, cheira a repelente de insectos. Passo os dias atrás de histórias de mulheres que não se resignaram. Mindjéris di balur, diz-se por cá. Mulheres de valor, dir-se-á por aí. Ouço-as com um fascínio quase infantil. Talvez por não encontrar nelas o gosto pela auto-comiseração. E é dificílimo viver na Guiné-Bissau. E a dificuldade aumenta para níveis absurdos quando se nasce mulher. Para o perceber basta observá-las a trabalhar na terra ou no mercado, com crianças pequenas apertadas contra as costas com um bombarem. O bombarem faz-se com pano pente, um pano de algodão executado segundo técnica de bandas estreitas, cosidas longitudinalmente. Rodeado de ritos e tabus, tem um carácter sagrado. Tem de ser cosido num só dia e jamais pode ser deitado fora, sob pena da mulher se tornar infértil. Não quero comparar a crise que para aqui vai com a crise que para aí vai, embora seja sempre bom uma criatura afastar-se do seu mundo para ganhar alguma perspectiva. Desejo, tão-somente, focar a resiliência, conceito que a psicologia pede emprestado à física e que estas mindjéris di Guiné me esfregam na cara todos os dias - quentes, húmidos, como as noites. Resiliência é a capacidade que cada um tem para ultrapassar traumas, se reconstruir. Quem pela primeira vez ouvi pronunciar essa palavra foi uma amiga que a morte ainda agora levou. Diabos. Íamos fazer qualquer coisa à volta desse motor alimentado a energia positiva... E ia ser no feminino. Se há coisa que as mulheres tendem a ter mais do que os homens é resiliência. E que jeito nos pode dar agora, que o mundo parece fugir debaixo dos nossos pés.

Ana Cristina Pereira