Confesso que ao olhar para o organograma do novo Governo a primeira coisa em que pensei foi na montra de um negócio em liquidação total, onde os produtos, outrora colocados com cuidado, aparecem a monte, porque o que interessa já não é gerir, mas fechar.
Saído das eleições de Outubro com a mais magra maioria de sempre, o executivo regional dá, com este novo/velho governo, a prova final de um fim de ciclo, sem espaço para regeneração, imaginação ou esperança. Já não é só o eleitorado a dar mostra de cansaço, o próprio governo acusa um cansaço profundo e sistémico.
O dramático é que este governo em fase avançada de degradação surge num momento em que se exige precisamente o contrário. Exige-se, como nunca, garra, inovação, regeneração, novas ideias e novas caras. Em suma, sangue novo.
Três semanas de reflexão desembocaram numa escolha que depressa se vai transformar numa encruzilhada. A nova composição do executivo regional é, na prática, impraticável, difícil de perceber, de aceitar e, pior do que isso, de gerir.
Como se podem misturar saúde e comunicação social, mesmo quando em causa estão 'casos clínicos' em fase terminal? Será possível conciliar áreas tão importantes como educação e o trabalho numa secretaria a que nenhuma das duas dá nome e nas mãos de alguém que apenas teve de gerir, até agora, um obscuro sindicato sem grande representatividade?
Como reconduzir no cargo um secretário das Finanças que embora não sendo o único e provavelmente nem será o principal culpado, é, no entanto, a cara do descalabro financeiro e do estado a que isto chegou? Para mais, colocando-lhe nas mãos projectos falhados de outros e que agora terá de resolver, ou seja, de fechar. Das duas uma, ou é castigo ou irresponsabilidade. E, visto de fora, qualquer uma das hipóteses me parece grave.
São muitas perguntas para um tempo de incertezas, para um tempo que exigia respostas.
Uma coisa, contudo, está clara: este não é um governo para durar quatro anos. A tão discutida e polémica sucessão de Jardim está muito próxima. No entanto, os que legitimamente tinham ambições não vão herdar aquilo com que sempre ambicionaram. Não herdam a região do desenvolvimento e das maiorias eleitorais de outrora, mas sim os despojos de uma gestão que se sabe agora desastrosa. São, enfim, os legítimos herdeiros de um império em ruínas e de dívidas que nos vão custar, a todos, mais do que podemos suportar.