Quase três longas semanas e duas viagens depois, diz que temos governo. Ou, pelo menos, uma espécie de governo, como lhe chamariam os Gato Fedorento, tal é a confusão ontem apresentada que mistura alhos com bugalhos. Só assim se compreende que a Educação seja despromovida, que as áreas de intervenção de alguns secretários sejam tão díspares com uma manta de retalhos. A proposta ontem divulgada até pode ser a mais eficaz mas, à partida, parece um baralho de cartas onde o rei de espadas manda no conde de copas, que é superior à dama de ouros e a cenas tristes. Como diriam os 'Homens da Luta': "E o povo, pá?" O povo mais consciente dirá: só me saem duques! Depois de reflectir até mais não lhe apetecer (enquanto a sociedade começa a inflectir até mais não poder), o mesmo presidente de sempre faz uns ajustes e aplica uns castigos valentes a uns, uns ligeiros correctivos a outros e, sem que se perceba como, promove alguns. Só assim se percebe que Ventura Garcês, o secretário que não viu a tempo o descontrolo total das contas públicas, não só permaneça no Governo como ainda veja reforçada a sua área de intervenção. Nem que seja só para ter o poder de fechar alguns sorvedouros. Quando muito, ao governante que não deu conta da dívida escondida, seria aplicado o castigo de continuar no Governo com a mesma pasta até aprender e corrigir aquilo que não soube, não quis ou não pôde fazer. Estranho também o aumento de poderes de Conceição Estudante, cuja Secretaria retoma a pasta da Cultura. Mas mais estranho ainda é o que Jardim faz a Jaime Freitas: dá-lhe a Educação, mas tira-lhe a Secretaria. Que dirá o sindicalista-secretário aos sindicalizados? Talvez algo do género: deram-me o vídeo e tiraram-me a televisão. E o comando. Já Francisco Jardim Ramos, ao que se sabe, vai gerir assuntos tão distintos como a Saúde e o Jornal da Madeira, por exemplo. Até pode fazer sentido, mas não se vê como, pelo menos para já. Resta esperar para ver. Além destas leituras muito superficiais, assumo, porque a esta hora ainda me custa digerir tanta e tão estranha informação, retenho uma decisão expectável: a de afastar os secretários regionais dos Recursos Humanos, Equipamento Social e Educação. É aceitável a mudança de titulares, mas, insisto, não se compreende a miscelânea em que é transformada a antiga Secretaria da Educação. De resto, também facilmente se percebe a manutenção de nomes como Cunha e Silva e Manuel António Correia, embora com áreas de intervenção que podem chocar. A proposta de orgânica é ainda rica em outras incongruências que só o tempo ajudará a perceber ou não. Mas uma coisa é certa: quem ganha tem o direito de desenhar o seu gabinete da forma que achar melhor e tem toda a legitimidade para as mudanças que agora se anunciam. Para o bem e para o mal. Oxalá resulte! Nas próximas semanas espero ser mais agradavelmente surpreendido com a lista dos directores regionais. Que esses lugares, que serão menos do que os actuais, sejam ocupados por gente empenhada, políticos de legítima aspiração e não apenas técnicos e burocratas que só atrapalham e fazem número - a não ser nas pastas onde é preferível um técnico a um político que só atrapalha, que também os há! E é bom lembrar que ao próximo Governo não cabe fazer grandes inaugurações, mas antes muitas correcções, opções, apertões e repetir outros palavrões que rimam com milhões. Com menos milhões. Por isso, que mudem o que têm de mudar, mas mudem. E façam qualquer coisa por milhares de famílias que já não sabem como sair desta onda de desespero que só agora está a começar. Por outras palavras: depois de meses de campanha, de troikas e de planos de austeridade que ainda desconhecemos, está na altura de trabalhar. No duro! E já vamos tarde. PS: Enquanto o CDS-PP e o PTP continuam - e bem - a rentabilizar os lucros eleitorais, o resto da Oposição anda a juntar os destroços. Nessa tarefa, o PS é o que mais rapidamente se aproxima daquele partido capaz de afastar os melhores e de fazer crescer o ego de alguns dos mais fracos, cheios de uma ambição que cabe em meio metro quadrado. Não admira que em tão pouco espaço não sobre lugar para um espelho, nem daqueles de bolso, como havia antigamente, redondos e com um jogador de futebol do outro lado. Com uma equipa alternativa que passou efectivamente para a sombra, no velho PS de Soares há dias assim, como que a dizer: 'siga Freitas'!