Da autobiografia de Nelson Mandela (1994) "A Long Way to Freedom", (Um longo caminho para a liberdade) extraiu-se o seguinte: "A Educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através da Educação que a filha de um camponês pode vir a ser médica, (…) que o filho de trabalhadores rurais pode tornar-se presidente de uma grande nação. O que distingue uma pessoa de outra é o que fazemos com o que temos e não com o que nos é dado." O ano lectivo avança em ritmo de cruzeiro. A escola vive a sua rotina de aulas, faltas, avaliações, recreios, reuniões. Também os ministerialmente defendidos apoios a Matemática e Português, por via dos exames. E claro, os ecos da crise, do défice e dos cortes orçamentais. Que este ano impediram o pagamento do prémio de 500 euros aos melhores alunos do Secundário, em razão dos cortes nas despesas do MEC, motivados pela dimensão dos buracos nas contas públicas. Que se reflectem também na dificuldade de muitos alunos comprarem os livros, ou até, num regresso a um passado recente, a terem de abandonar a escola, por via do dinheiro do salário em atraso que não chega, do emprego que acabou, do subsídio preso na tramitação burocrática da Segurança Social, do escalão da ASE que não foi atribuído. Porque, sim, a educação tem custos. Corre até à boca pequena a intenção governativa de acabar com o ensino de duas línguas estrangeiras no 3º Ciclo. É mais uma poupança em número de professores. E com a União Europeia cada vez mais desunida, isso de cada cidadão europeu dominar duas línguas para além da sua deixou de ser prioridade. E comme d'habitude, do que vai acontecer nesta turística pérola do Atlântico, nada consta. É claro que no caso das línguas, haverá sempre escolas privadas no mercado para quem queira, ou possa pagar os seus cursos. Talvez se saiba alguma coisa depois de 9 de Novembro… Mas porque Outubro conjuga escola, celebra-se até o Dia Mundial do Professor, é pertinente discutir temáticas educativas. O direito universal à Educação obriga a que constantemente se avalie a escola que temos, a da incerteza dos certificados, qualificações e diplomas que nada valem na procura do emprego que não há ou está reservado aos "boys" e "girls" partidários do governo de turno, ou do modesto trabalho precário, para o qual o Centro de Emprego responde que se tem habilitações a mais. Reflectir sobre Educação, essa mola que como bem diz Mandela transforma o mundo, é reconhecer que podemos estar a inverter a virtuosa mobilidade ascendente que a mesma devia proporcionar em termos civilizacionais, e a assistir a uma regressão social, à proletarização e empobrecimento de largas faixas da sociedade. É preocupante este desperdiçar de qualificação. Mas há outras realidades no nosso contexto escolar, que se prendem com o insucesso de muitos alunos e das respostas aparentemente fornecedoras de outras vias de qualificação, que o sistema oferece. Se à partida podiam ser encaradas como a desejável diversificação na monoculturalidade e etnocentricidade dos nossos currículos, a verdade é que para a sociedade embalada na filosofia do "currículo nacional, pronto-a-vestir, tamanho único" (Formosinho), levam sempre a marca de solução de recurso, curso diferente para alunos com histórias de falhanço escolar, repetência, problemas de aprendizagem e comportamento, que não conseguem inserir-se no que se convencionou chamar o "currículo normal". A diferença do padrão converte-se em desigualdade, por muitos factores: socializações problemáticas, disfunções familiares, fracturas sociais e ausência de perspectivas e sonhos em jovens tornados estatística de matrícula. Muitos simplesmente não querem aprender. Trazem à mistura na mochila, currículos pessoais de cicatrizes e feridas emocionais de experiências mal sucedidas. Põem à prova todos os saberes e recursos cognitivos, pedagógicos e afectivos dos professores e fazem da permanência na escola um contínuo e interminável recreio. A sala de aula fica refém de comportamentos de permanente confrontação e desafio que ultrapassam a saudável contestação juvenil e que por vezes roçam a patologia, comprometendo a qualidade da escola pública e o seu papel desejavelmente integrador e inclusivo. O Estatuto do Aluno e a sua delirante tramitação burocrática não dão resposta aqui. Nem a própria escola, por si só. É inevitável a dúvida, se não será um inútil e degradante faz-de-conta manter jovens dentro de muros da escola sem que disso resulte a formação cidadã, emancipatória, propiciadora da desejada mobilidade social e cívica ascendente. O que se pretende com estas soluções? Mascarar o insucesso, resolver a desigualdade ou geri-la? Ou manter a ordem estabelecida de ser a escola afinal agente confirmador e reprodutor das desigualdades sociais? O Ministro Crato responde com mais Matemática, exames, o cânone do rigor, da exigência e da excelência da escola. Percebemos.

Júlia Caré