Uma palavra a todos os artistas. Se você é artista, a ordem é "fazer muito com pouco" e, se for o caso, encarar estes tempos como uma fonte de inspiração. A arte é a expressão individual e também o reflexo do indivíduo na esfera de uma sociedade e também do reflexo da sociedade contida em cada indivíduo. Numa época de crise, ou de pânico da crise, de sensação de perda de controlo de poder e das necessidades básicas, tal como as conhecemos, ameaçadas, a expressão artística (seja ela qual for) é quase sempre deixada para trás e é-lhe dada importância secundária. É uma decisão que diz respeito à gestão. Não quero discutir se é uma decisão errada ou não. Esqueçam as frustrações e as faltas de apoios, dinheiro, comodidades, espaços, e se calhar, expressem tudo isso. Se o meio é a mensagem, que a falta de meios o seja também. Enquanto há voz, papel, lixo, ideias, tudo é um suporte possível e tudo é tema. Em bom espírito da criação, que não entre a arte em crise, que faltem as publicações, as inaugurações, as publicidades e dinheiro. E que ascendam grupos, os indivíduos e ideias e as execuções. Que se perpetue o sentido de humor, a ironia, o romantismo, a indignação e a maldita esperança. Até que tudo caia e vire escombros. Até que o fim do mundo seja o fim de cada mês, (como parafraseava uma amiga minha no Facebook). E quando não houver mais nada voltaremos a pintar nas paredes das grutas que nos abrigam com argila e pó das rochas coloridas. Sem medo da pretensão. Que se crie.
António Ferraz, Colaborador da Associação Académica da UMa