Em Política, o tempo rege demasiado os actos. Tenho pena. Às vezes, sinto falta da memória na Política. Sinto, sobretudo, por não haver coerência sem memória. Nestes períodos (breves) de desilusão, costumo voltar a um livro: o"Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Porque obrigado, vou resumi-lo. É sobre um Velho cubano que, a custo de sangue e suor, pesca um Marlin gigante no Golfo do México. No regresso, abatido pelo cansaço, não consegue resistir a um ataque de tubarões, que lhe devoram o peixe amarrado ao casco até só lhe sobrar a carcaça. O Velho regressa a Cuba com o peixe depauperado e inutilizável. Cambaleia até casa com o apoio de um rapaz, enquanto locais e estrangeiros admiram a espinha do enorme peixe com o assombro que acompanha todos os grandes feitos. A mensagem, felizmente, resistiu à Velhice: não podemos garantir os benefícios dos grandes actos - a carne do peixe - mas apenas o testemunho da dignidade de os termos levado a cabo - a espinha do peixe. A fúria retaliativa ante as medidas do OE ("prendam os políticos!") lembra-me de outra Velha, em Portugal. Há três anos, a Velha avisou quanto à insustentabilidade do crescimento da dívida e do défice. Em esquife inseguro (chamou-lhe Verdade), lançou-se ao Mar, tentando subtrair a Dívida às suas profundezas. A Política, pródiga em tubarões, não lhe perdoou. A Política derrotou-a, substituíu-a, e quase a insignificou. Ainda hoje, é raro ouvir uma voz, para além da do Tempo, que lhe dê razão. Reconheça-se Manuela Ferreira Leite. Testemunhe-se a grandeza de ter falado verdade em tempo útil e terreno infértil. Admiremos-lhe a espinha.Talvez assim ganhemos a humildade de realizar que nós também somos Política, e de que havia alternativas a este grau de austeridade. Peçamos justiça, mas depois de perceber que o que traíu o País, mais do que um crime, foi uma ideologia validada pelo povo. Fomos tubarões de nós próprios, e comemos, nós também, a carne que hoje nos faz falta.
Pedro Fontes, Advogado-Estagiário